Certo mesmo, só(?) o incerto.
Certeza é aquilo que nos acontece no vão do olhar e do pensamento, é constatação. É aquilo que a gente imediatamente reconhece como verdadeiro, sem mais delongas. É aquilo que emerge à nossa frente e invade sem pedir licença e logo afirma algo: “Esse sorriso é verdadeiro, aquele não.” “Aquela música é ótima, essa não.” Certeza não é algo que pode ser colocada em uma caixa com embrulho à presentear alguém. Também não é brinquedo pra quem quer fazer-se Deus - Certeza não se cria, se torna.
A certeza é, porém um tanto quanto incerta, nada que devesse nos assustar, pois como ter certeza das coisas, se são – se somos – incertos?
É que insistimos em dizer o que as coisas são, como se por decreto, a partir do momento em que eu digo, a coisa é e não deixa mais de ser. Afirmar que o azul é azul e ponto final, em dado contexto, é ignorar a variedade de cores que o “azul” pode ter. Assegurar que uma pessoa é feia, é cimentar tudo aquilo que se pode chamar de “beleza”, é engessar uma pessoa a um adjetivo, seja ele pejorativo ou não. Certeza é algo que só podemos ter em nós, é algo que surge do impacto com algo, do que nos causa. Impacto este, que acima de tudo, é momentâneo, tem tempo, hora e lugar pra acontecer. Dessa maneira, só podemos ter certeza sobre o que algo ou alguém é em nós, não temos certeza sobre a coisa ou a pessoa em si. É uma aproximação que com cuidado e atenção pode ser precisa, embora permaneça incerta. Estar certo da beleza que algo ou alguém é para mim, é, portanto ter certeza de que é bonito, mas só o é, porque é para mim. Pode ser que para meio mundo lá fora seja o contrário, e isso não destrói a minha veracidade e nem a dos outros. E aí é que está a riqueza disso tudo: Certeza é limite que não limita, é o acordar do outro em si.
Em suma, por observação e com a ressalva de que isto não é um modelo, estou seguro de que ter certeza da certeza, no sentido de criar conceitos estáticos, quase dogmas, se trata de prepotência. É o absurdo de julgar saber sobre o que por natureza não se pode alcançar. É alienação. A incerteza da incerteza, por outro lado é o ceticismo, é a angústia de não se vincular, de não poder dizer nada sobre nada, nem mesmos sobre si. É ausência de parede, de teto e de chão: É vazio.
Creio que a certeza da incerteza (a certeza de que as coisas são por natureza incertas, que mudam, variam, dotadas de infinito formato) seja o lugar em que se dá o real encontro. É a tangente do que se vê e do que de fato é. É a intersecção entre a nossa percepção e a existência de algo que nos é externo. É, por fim, o despertar de algo que nos faz sentir, que toma um CERTO sentido e então passa a significar.
Certeza não é verdade absoluta e incerteza não é ceticismo puro e simples. Há aqui o que eu chamaria de “In-certo encontro”., A tranqüilidade de encontrar na incerteza um abrigo, de entregar-se às possibilidades de ser, e de repente já não mais. A riqueza de obter na certeza do variável o infinito do por vir.
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