sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A Galinha de ouro dos ovos.

Entro em casa e as coisas me parecem desarrumadas, não por descuido, mas por uma espécie de conformismo: A cama não está pronta, não há comida na panela, não há sinais de ansiedade ou euforia. Tudo em seu estado mais próximo da natureza de uma casa de trabalhadores: da poeira do dia-a-dia ao cansasso de quem passa um terço de dia a dedicar-se ao pão do mesmo. Nada parece poder surpreender em uma quinta-feira como qualquer outra do ano àqueles que levantam-se cedo, tomam um café e então um banho, vão para o trabalho, almoçam e voltam a trabalhar, e enfim chegam em casa e vão se distrair até dormir ou quem sabe até ligar, ou como sonham, receber uma ligação dos filhos. Os dias parecem esperar os próximos e assim por diante, para as pessoas que criaram seus descendentes como ovos de ouro, e os viram zarpar como seres que, repentinamente, quebram a não tão dura casca, como supunham, e voam para longe, com asas tantas vezes imaginárias.

É triste, muitas vezes injusto, mas impressionantemente maravilhoso, como podem dois seres tão demandados por Deus, verem suas forças desabrocharem em afeto ao ver chegar um velho conhecido par de olhos em um corpo cada vez maior, mais velho, e quantas vezes modificado pelas cicatrizes da vida que eles não puderam - não que não quisessem - ver cicatrizar, e que se pudessem, teriam evitado até o machucado.

Não por acaso falo sobre Deus, pois ao pensar em tudo isso, não posso falar de algo ou alguém terreno como explicação para coisas dessa magnitude. Me impressiona isso: como pode uma vida, pelo simples fato de existir, causar tamanho impacto na vida de outras duas vidas?
 
Falo também sobre o caráter por vezes triste e injusto desta maravilha, mas há também quem volte vez em quando, há quem abra a porta e encontre a velha casca de ouro e sorria ao vê-la semi- intacta, há quem olhe para a poeira sobre os velhos móveis e chore, e quem não se importe de não ver as panelas cheias na chegada. Ainda bem. Uma quinta-feira qualquer, sendo assim, pode se tornar um dia especial para uma dupla de idades que já soma cem.

Sem palavras, ao rumar para casa em uma noite fria, andando pelas ruas da velha e pacata cidade, em meio ao vento e ao peso das malas, nada poderia vir à cabeça entre a rodoviária e a antiga casa no morro, além da espera de um sorriso espantado e embebecido de alegria, ou mesmo um desmaio ou um ataque do coração - que Deus nos livre - não menos motivado pela felicidade suprema do momento.

Tudo o que falo pareceria um romanticismo bobo se eu não falasse do dia que antecede o aniversário de uma mãe, e que esta, não ligara para seu filho na mesma noite, com a suposição de que o incomodaria, mesmo que seu único desejo do dia fosse a de ouvir a sua voz. É um absurdo que uma mãe abdique de seu maior querer, que é tão pequeno, para não causar ao filho qualquer transtorno. É um belo absurdo.

Eis então, que pelo portão, entra o filho, e com ele, as asas imaginárias e já não tão intactas em decorrência de turbulências e vôos mal sucedidos. Na chegada, ele olha para a velha casca de ouro, e ao pronunciar uma palavra breve e suas não mais que três letras, evoca um amor tantas vezes maior que julgara um dia encontrar fora dali. Em resposta, um olhar apaixonado, um abraço apertado e um "não acredito que você está aqui!"

Movido por uma súbita vontade de voltar, de rever, de surpreender e levar um agrado, diferentemente das outras vezes, o filho não chegou em uma data demarcada por um feriado nacional. Não tinha cama arrumada, comida farta, casa brilhando e sem poeira, ansiedade ou euforia. Estava ali apenas o básico, e o que sempre terá: amor. Na hora em que chegasse, como chegasse, o dia que fosse. E a alegria que procurava proporcionar, foi recebida em proporções infinitamente maiores.

O que preciso aqui, é que não há como não recuperar a fé ao ver alguém, que de repente, com um tocar de campainha e ao ouvir uma voz que chama "mãe!", se torne a pessoa mais feliz do mundo. Não há como não ter fé quando se pretende presentear alguém com o que julga ter de mais valioso, a própria presença, e então percebe que é apenas uma retribuição, ínfima, diante do presente recebido por Deus, ainda antes de nascer.