segunda-feira, 25 de março de 2013

Seja lá como f(l)or.

Diana, uma jovem de vinte e tantos anos, carrega consigo como profissão e ideal: vida é arquitetura. Projeta formatações de ser, espécimes de arranjos comportamentais e de concreto. Desenhos de estruturas de vida na ponta do compasso. Segue a vida como quem a detalha e organiza cômodos bem delimitados. Para Diana, as coisas tinham de estar sempre bem colocadas e dispostas para que pudessem funcionar: na vida e nas construções. Diana provavelmente perdeu a aula em que explicaram que toda construção, por mais elaborada arquitetonicamente que seja,  em contato com um vento que iguale as vibrações do concreto, se torna pó. Um simples vento, derruba um arranha céu, e esta é a maior causa de desabamentos no mundo. Como a arquitetura, a vida é frágil, Diana.

Davi, também jovem, de vinte e um pouco menos, acreditava fielmente que a vida é tal qual os gibis e histórias de super-heróis. Aventuras de início, meio e fim bem delimitados: o problema, a ideia fantástica, a solução certeira. No fim, a história de superação, a moral. Davi se inspira nestas histórias pois pensa que os homens podem ser heróis de suas próprias vidas, se tornarem fortes e mudar os rumos da história. Davi queria ser herói, mas, não sabia por onde começar e contentava-se a ficar deitado.  É que ao terminar de ler uma gibi, ele pouco entendia da dor que lhe vinha quando chegava na última página em que, mais uma vez, o "Super-homem" salvou o mundo. Por mais que se divertisse, sempre ficava um incômodo: "E daí?" Davi não se deu conta de que o gibi termina justamente onde a vida começa. A vida, diferentemente das fantasias de super-heróis, é frágil.

Diana acredita que há mais vida na Terra do que podemos ver. Para ela, as galinhas tem uma super-visão e ela tem convicção de que extras-terrestres existem - e mais, são seres de "bom coração". Diana acredita que exista um Deus, mas não vai à igreja. Sua mãe diz que é falta de fé, mas para ela não faz sentido o fato de que Deus fez o planeta inteiro, para que ela tenha que se lembrar Dele só na igreja. Ela não admite, mas quase nunca Dele se lembra. Tem para si que ter determinadas plantas trazem boas vibrações para a vida e energizam a casa. Suas amigas vivem falando de horóscopo, ela faz piada, e sobre acreditar diz: "nem pensar". A verdade é que quando está passando por problemas, é ao diário de Touros, aquele do jornal de alguns centavos, que ela recorre. Diana pensa que homeopatia é tal qual ilusão de óptica, e que trevo de quatro folhas de fato dá sorte "Sempre tenho um na bolsa". Esta é Diana, e quando seu namorado resolveu questionar se estas formas de pensar seriam as mais corretas, ela não soube responder e um pouco engasgada disse: "Não sei, só sei que foi assim."

Davi mantém ao lado de sua cama um pequeno livro "Cartas a um jovem poeta", de Rilke. Acredita em destino, e que nesta lógica, abrir uma página aleatória do livro e ler um pequeno trecho, sempre vai trazer a luz necessária para um momento de desespero. Davi não acredita que remédios curem: "É tudo psicológico" diz ele, embora por vezes recorra a eles. Pensa que a vida na Terra vai terminar com uma catástrofe meteorológica bizarra - ele esconde, mas seria uma chuva de granizo potencializada - e que o socialismo solucionaria boa parte dos problemas humanos, tornando o mundo mais justo. É ativista da causa, mas tem compulsão por produtos eletrônicos e sobre a profissão responde: "Estudo medicina por dinheiro". Para ele, a bíblia é uma falsificação ideológica e que o que rege a vida na verdade é algo que não dá para saber, e que se não dá para saber, melhor não se preocupar com o tema. Estas são as verdades de Davi. Sua namorada às vezes chacota com estas "coisas estranhas", mas Davi canta zombando, como se não se importasse: "sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão. Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão."

Davi e Diana, apesar de muito diferentes, guardam sem saber, perguntas em comum, às quais causam a ambos sensações de vertigem: O que se passa na cabeça das pessoas? Ficam a flutuar imaginando o que poderia estar pensando um Sírio que vai para a Guerra ou um índio que crê no poder da chuva. Se perguntam sobre o que deve pensar o Papa, o presidente, o assassino, o cafetão, e finalmente: Porque eu penso no que penso? 

O que Davi e Diana compartilham é a vida em sua raiz: Composição misteriosa de paradoxos não contraditórios.

Para Diana, bastava olhar as plantas energizadoras de sua casa: Como pode ser justo do esterco que nasce a flor? Como pode uma brisa derrubar um prédio?
Para Davi: como assim ler gibis pode ser minha maior fonte de diversão e me causar tanta dor imediatamente depois? Como pode um trecho simples do livro do Rilke de repente mudar o meu jeito de enxergar o mundo inteiro?
É que em Davi, a vida floresce já quando pensa na próxima história de gibi que lerá ao fim do dia.  Enquanto isso, Diana floresce com papel e caneta na mão, com a ideia da casa ainda em construção. Como Davi e Diana, na simplicidade de seu florescer diário, quando a gente vê, já nasceu, já deu flor. Já foi, já é. Sutilmente chegavam ao puro da vida. E foi aí que se deram conta!

Davi e Diana namoram. Pelas leis da física e da psicologia sensorial, se encontram cinco vezes por semana há quatro anos, mas Diana e Davi nunca se encontraram. O que é o encontro senão deixar que o outro seja, seja lá como f(l)or?

Hoje foi um dia atípico - que bom que há dias assim.  Davi deixou um vaso com tulipas na mesa de projetos de Diana. No bilhete: "Tulipa significa beleza. É para energizar a sala, pra ela ficar tão bela quanto você." Do outro lado da cidade, Diana comprou para Davi um porta retratos no qual colocou uma foto dele dormindo. Ela o deixou na escrivaninha ao lado do livro de Rilke, com os seguintes dizeres: "Te amo, meu herói!" Ah, a vida em sua raiz! Composição misteriosa de paradoxos não contraditórios: Hoje Davi e Diana não se viram, estavam ocupados se encontrando.