Levantar-se é um grande esforço quando a alma pesa e pede,
num último grito de misericórdia, para que o relógio atrase e pare por alguns
minutos - horas ou dias. É como uma esperança que se ascende à espera de que, neste espaço de
tempo, em que não existiria vida, ela própria se reorganizasse para eliminar as dúvidas e então, o medo.
Como a súplica da alma não poderia ser correspondida, o
corpo, com algum esforço se levantou. Não havia nada ao redor que se pudesse
denominar exatamente como coercitivo; não havia algo em especial que ameaçasse
a integridade, a saúde, ou a carcaça. Eu, em casa, sozinho, sentia um medo
terrível, diferente de todos aqueles que poderia sentir do lado de fora -
ameaças estas que os desavisados chamariam de "ameaças reais" - senti
medo de mim, e nunca foi tão real.
Naquele pequeno quadrado, do quarto e do pensamento, me
acompanhavam as lembranças de momentos dos quais fiz
parte, de pessoas que encontrei e de quantas vidas que, por querer ou não,
havia tocado de alguma forma. Estava diante de um passado tão remoto quanto
recente de tantos males que causei, de outras tantas benfeitorias, e,
principalmente, de tudo aquilo que de alguma forma deixei no mundo, e que me
escapou à consciência. Coisas que eu não sei.
Em meio a todo esforço que comecei a fazer, percebia aos
poucos que não havia formas de me livrar disso: dessas lembranças, desse medo.
Bem vinda, ingrata ignorância! Ela sussurrava lentamente em meu ouvido algo que
eu, obviamente, não sabia: “Isto, do que você está tentando se livrar - vá em
frente, otário! - é você.”
Nesta manhã, senti que tinha forças para mover uma
montanha. Nesta manhã, mal consegui deixar o meu quarto.
É que a verdade é ingrata sem ser hipócrita. Ela está,
sutilmente, em todos os lugares, o tempo todo. Está nas coisas e nas pessoas. Mas a verdade, embora real demais, é imperceptível por vezes. E é tanto, que eu,
verdade máxima para mim, me assustava nesta manhã, em ser eu mesmo. Era
assustador lidar com meus sonhos, meus defeitos, minhas saudades, minhas
paixões; Com os erros, os acertos, os erros assertivos e os acertos errôneos.
E, por fim, o vão: “pra onde foi tudo aquilo que aconteceu? Pra onde foi
toda essa verdade que eu simplesmente não cheguei a conhecer?" Não sei."
Não saber também é uma verdade, e é tão verdade o tanto que não sei, que é aqui
que mora o medo: Que as coisas nos escapem é um absurdo medonho.
Paradoxalmente, reconhecer a ignorância como estrutural em
mim, foi a possibilidade única de me despedir dela. Foi ao abraçar minha
ignorância que pude enfim expulsá-la. Saber-me como alguém que não pode saber a
verdade de tudo sempre, não eliminava o medo de que a qualquer momento a verdade
poderia surgir e ser ingrata comigo, e que poderia me mostrar uma face da vida que eu imaginara, ou nem isso. Por outro lado, eu pude reconhecer que, por não ser hipócrita, a verdade, quando se desse, me traria "a
dor e a delícia de ser o que é." Deu medo da dor, mas deu vontade de
descobrir a delícia do que é.
Nesta manhã de domingo, as coisas - perceptivelmente -
não mudaram muito. Me sentei e fui ouvir uma música: "E daí se todo lugar
em que estou, parece que estou apenas de passagem? E daí, se eu tropecei, se eu
caí, se eu me cortei, se perdi tudo e se, finalmente, eu não pude ser tudo o
que eu poderia ser?" Eu vou esperar. E aí, quando eu não mais temer
quem eu sou e quem eu posso ser, talvez eu também espere por você. Por enquanto, estas são coisas que eu ainda não sei, mas estou grato.
O contrapeso do medo - descobria - é a gratidão.