segunda-feira, 13 de maio de 2013

Interrog-ação.

Teus olhos gritaram, naquela noite, algo que você nunca ousara permitir atravessar teus lábios.

Na verdade, os olhos nunca mentiram, ou melhor, omitiram o que quer que fosse. Em meio a uma redoma de ditas amizades e de outros tantos moldes sociais e adolescentes, por muito tempo, eles entregavam a verdade por você encoberta, mas apenas por frestas. 

Em nossos breves encontros, seus olhares, despercebidos(?), pareciam me atravessar. Sempre me olhava nos olhos como quem se interessava por "esferas transparentes de núcleos castanhos, tais quais bolas de gude". Olhava para o que queria mais ver, bem sabe, mas sem olhar. 

Não, não há mistério algum nessa áurea toda que tentara criar ao longo de bons(?) anos. É como a solidez de uma vida construída em bases fracas que se desfaz com alguns goles de qualquer bebida. Deveria saber disso antes de tomar seus pileques e estancar os olhos onde, desde sempre, eles gostariam de estar. Naquela noite, embora a boca conservasse o mínimo de sanidade(?) pra não atravessar a linha construída com esmero, seus olhos foram pontes.

O acaso fez então o trabalho de que teus olhos procurassem justamente um ouvinte de palavras não ditas, quanta sorte!(?). E então, regados à álcool, teus olhos cresciam à todo e qualquer movimento que o corpo, dono de tais bolas de gude, fazia. Quão fácil era perceber que seus ouvidos, ocupados com algumas palavras de amigos(?) se confundiam com o endereço de seus olhos: pousados em uma baía de desejos reprimidos.

Naquela noite, o escândalo de seus olhos foram ouvidos, ainda que lá pelas tantas da madrugada, você saía da festa sem trocar uma palavra com seu real destinatário. O alívio que se passa em seu peito agora, imagino, é aquele de quem, na manhã seguinte, não teve de se justificar sobre os ocorridos na noite passada, já que nada-acontecera(?). Tal alívio é o suficiente para te reerguer em sua redoma, e então recolocá-lo em sua perversa vida social. Então você segue, convencido(?) e convencendo(?) de novo e sempre de que "Estava apenas olhando para algumas bolas de gude".

Guardou durante toda a noite em sua boca, cada vez mais seca, uma sede inextirpável. Ao ir embora, teve de se ater com o destino de toda aquela saliva perdida no próprio corpo e que, rumando aos olhos, transbordava.

Enquanto guardares tua saliva, eu beberei da fonte dos teus olhos.