domingo, 14 de julho de 2013

Veracidades

"Não se pode encontrar a paz evitando a vida, querido Leonard." 


- (...) Deveria ter feito a barba!

- Continuas a esperar pois, que a lâmina limpe tudo quanto há em meu rosto e em minha vida de acumulado durante todo este tempo? Bem sabes que seria muito mais fácil que esta limpeza fosse feita também com a lâmina, mas no pulso.

- Ah! Você e seus dramas...(risos) Tão costumeiros! Não é só a barba, você continua o mesmo.

- Infelizmente... infelizmente. Gostaria que estivesse por aqui comigo durante este tempo. Não digo que seria mais fácil, mas seria... eu seria mais feliz. 

- Eu... bem, não sei o que dizer. 

- Sim, não... Não vamos falar sobre isso. Em verdade você me fez companhia, sabe? Durante todo este tempo rezei por você sempre que ia dormir. Ontem mesmo rezei. Eu tinha fé de que você estaria por aí fazendo coisas muito bonitas. Era por isso. E quando eu rezava eu tinha certeza de que se existia alguém que fazia algo de bonito no mundo, eu podia esperar que algo de bonito acontecesse comigo também. Assim sua companhia me fazia levantar todos os dias.

- É uma pena que não tenha sido o suficiente para que fizesse a barba! (risos)


- É disso que eu falava... que saudade! Eu sabia que você estaria por aí fazendo as pessoas sorrirem. 

- Também senti falta desta sua sensibilidade. Não me levavam a sério, bem sabes. De fato levei muitos sorrisos às pessoas, mas às custas de quê? O quanto eu dava era o quanto eu perdia. Fui perdendo a graça pra mim mesmo, embora os outros rissem das minhas fantasias.

- Agora você entende porque eu rezava por você.

- Você deve saber então o motivo pelo qual voltei, não é?

- Isto já é querer demais da minha sensibilidade. Eu nunca soube se voltaria ou não. Na verdade, o que eu queria... eu queria que voltasse, que ficasse. Rezei muito pra isso. Aos poucos comecei a rezar para que fizesse o que fosse para o seu bem. Foi assim que entendi que perderia a graça uma hora ou outra. Só não sabia quem secaria suas lágrimas, pequeno palhaço. (risos)

- Te achava muito sério às vezes, sabia? Este jeito sensível e dramático de ver as coisas me assustava muito. Ao mesmo tempo que era tudo tão claro e limpo, parecia que a qualquer momento algo... você iria sugar a alegria toda e deixar tudo cinza. Sentia uma dor terrível, embora algo aqui dentro me dissesse que era o que eu mais precisava, o que eu mais...

- Sim, o cinza, as cinzas... você tinha medo que tudo acabasse, e era difícil pra você viver com esta possibilidade de que tudo que existia simplesmente se fosse. E então foi. Você foi. (...) Me lembro de uma noite que passamos em claro. Você e suas piadas, e eu me divertindo muito com aquilo tudo. Depois de muito brincar ficamos em silêncio, você me abraçou e chorou como nunca vi ninguém chorar. Às vezes é preciso um bocado de riso pra ter coragem de descobrir o medo, não é?

- É! Acho que aquela foi a última vez que chorei... Eu havia me esquecido de que você também me fazia sorrir. Você ria tão de graça que... que era a minha graça.(...) Mas era isso que doía, não sei explicar. Era tudo tão... como posso dizer... tão...

- Real?

- É.


- Foi por isso que você foi?
- Foi por isso que voltei.