quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A ilha e o continente

Confesso que ontem me senti sozinho em sua companhia. Senti-me sozinho como poucas outras vezes na vida me senti. Suas palavras confirmavam aquilo que por vezes imaginava, que, há cinco anos atrás, quando éramos nós, você não estava ali. Foi bom saber, pois é a verdade, e esta, por doída que seja, merece ser dita e ouvida. Doeu perceber que vivi sozinho o meu primeiro amor.

Éramos jovens, somos jovens ainda, mas fica claro que a ingenuidade, que não foi de toda ruim, ainda que preservada, não é mais a mesma. Já vivi um pouco, já vivemos. Você por mais tempo, eu com mais qualidade. Vejo que você derrapou por tantas estradas e que nem por isso abaixou a cabeça, e é claro que assim cresceu. Mas eu vivi abaixando a minha. Era fácil perder o prumo e deixar de acreditar que era possível viver algo sincero. Você foi por um bom tempo a minha referência. E tal qual, minha referência foi de frustração.

Senti-me sozinho, mas hoje me dei conta de que não faltava eu ali. Faltava você. Você, essa figura despersonalizada. Vestir-se bem, andar com o tronco inclinado, ser esperto e levar as coisas na lábia são dons que, desmembrados da pureza e da simples verdade, são meros dejetos em uma carcaça humana. 

Poderia estar julgando ou sendo crítico, mas a verdade é que o nome do que sinto, hoje, é discernimento. Veja bem, não há palavra neste mundo que passe sem tocar a gente, que não toque também a nossa história, e você faz parte da minha história. Hoje, não há palavra sua que me toque fundo. Você construiu raso, eu construí fundo. Me alcançam suas palavras, mas nada do que você me fala toca a parte onde, com você, construí sozinho...  Nada, nem uma palavra sequer. Ontem não haveria lugar no mundo onde eu me sentiria mais sozinho do que aquele, ao seu lado. Nossos passos voltaram a se encontrar e eu vi que você caminhou, que caminha. Eu vou por outra direção.