quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Core-agile

A senhorinha filósofa pôs-se a falar. Seu filho está doente e ela, que sempre se prezou a colocar as coisas em teorias das mais diversas escolas, fossem gregas, orientais ou germânicas, estava ali a falar de sua pura e simples experiência. Pronunciara - como há muito não fazia -, a palavra amor sem demagogias, da mesma forma que falou em "manter os pés no chão."

"O amor não é um sentimento, o amor é uma decisão". Talvez esta frase tenha sido a única e mais rebuscada filosofia que ela usara - sem tal pretensão - em seu discurso, enquanto descrevia meticulosamente os fatos concretos da realidade dura que vinha vivendo com o filho. Mas o que queria dizer a senhora com tal afirmação?

Seria ingênuo se reconhecesse que ela estava a dizer que está nas mãos de cada um decidir quando, como e por quem sentirá amor. Vã filosofia seria esta de imaginar o controle sobre algo tão nobre. As coisas mais nobres não estão sujeitas a domínio algum.

Seria mais ingênuo ainda se tentasse explicar que o amor não se trata de um sentimento, como se este não nos desse provas claras a partir de sensações corpóreas e mais do que isso, como uma perda da racionalidade que passamos a vida tentando - em vão - nos educar para.

O que queria dizer a senhorinha, então?

O amor é uma decisão na medida em que, como diria a célebre poeta Clarice Lispector, "apesar de", a pessoa escolhe, decide, toma a posição de permanecer.

A senhora falava de uma situação deplorável, de 11 anos lutando a fio, dia-a-dia ao lado do filho. Ela era uma pessoa que, por amor, mandara prender seu filho. Sim, por amor, dizia ela. Ou era preso, ou morto. "Não gostaria de vê-lo morto, o vi preso. Não quer dizer que doeu menos. Eu não sei." 

Poderia dizer que amor de mãe é incondicional. Talvez poucos negassem tal afirmativa no que diz respeito ao sentimento. Mas quanto à decisão, esta é irrevogavelmente diária, e portanto, condicional. É acordar e se lembrar de ir à cadeia, de enfrentar as discordâncias familiares, as críticas dos que desconhecem o real do amor, e as mazelas do desprezo da própria pessoa amada que não concebe o amor em tal ato. E é aí que está: o amor só se constitui, mesmo, no ato, na escolha de seguir com, apesar de.

E a senhorinha filósofa, que passou a vida matutando elucubrações sobre o que é a vida, o que é o amor e tudo quanto mais, decidiu ficar ali, ao lado dele, apesar de, e principalmente Por-Tanto, é preciso dizer.

A senhorinha, enquanto dizia, enquanto fazia, só ainda não percebia. O amor não é só um sentimento, não é só uma decisão. O amor é uma coragem.




*Core-agile é, em latim "ação do coração". Em português, a palavra coragem tomou denotação de bravura, luta, competição, e perdeu o seu real sentido, que é a ação de adesão àquilo que o coração é convidado a.