segunda-feira, 31 de março de 2014

Escrituras do silêncio

Eis o breve silêncio da ponta do lápis prestes a encontrar o papel. Ali estão todos os pormenores do que precede o encontro. A dúvida e a expectativa, a ideia e o ideal; o desejo e o sonho, o medo e a busca.

É tal qual nos encontros dos possíveis enamorados que estão prestes a se encontrar pela primeira vez. Sem saber que um, ponta do lápis, e o outro, folha de papel, tem em suas prescrições um tanto de coisas para fazerem juntos, inclusive muito pouco e até mesmo nada. Guardam no silêncio de suas predições cada característica e intenção, suas histórias concluídas e seus borrões.

Os lápis, tantas vezes estão desapontados. As folhas jogadas pelos cantos, amassadas, rabiscadas. As marcas do tempo de encontros tantos que não vingaram poemas, ou cartas sob a forma de aviõezinhos. Meros rascunhos. Talvez tenha faltado cor no lápis para aquela folha, quem sabe a folha não era tão lisa quanto necessário para aquele lápis... Certo é que, ao se encontrarem, por se encontrarem, já não eram mais si mesmos, mas um tanto de si com um tanto quanto daquele tu encontrado.

Daqui, aponto um lápis e desdobro uma folha de papel. Que façam juntos qualquer arte, desejo. Que as folhas não sejam feitas de rascunhos e que os lápis não sejam descartados no primeiro desgaste. Não desta vez. Não mais uma vez. O anseio de que do instante criativo de tal encontro emerja finalmente uma conjectura de dois. Tal qual uma poesia, que quando terminada, se abre para o futuro de tantas possíveis leituras: Que façam um fim, sem findar-se novamente e só, e sós.

E cá estou em uma nova predição, com cada característica minha e com cada intenção. Com um tanto de histórias concluídas sem me eximir do que é borrão. Me encontro comigo mesmo justamente neste espaço de tempo: no breve silêncio da ponta do lápis prestes a encontrar o papel.

E não há garantias sobre o que seriam um sem o outro, nem tampouco sobre o que serão.