Ouvia falar sobre esta palavra esquisita na infância e não a compreendia. Bruna não entendia bem o que era mágoa, mas acreditava que esta poderia ter alguma semelhança com sentimentos outros que também não identificava em sua experiência, como ódio, indiferença, hipocrisia e cinismo.
Ao largo dos anos, conheceu o ódio. Guardava em seu coração aquele impulso de agressividade e repulsa diante de algumas situações e pessoas. Bruna acolheu então a indiferença que brotava em seu coração quando o ódio de algum modo se amenizava deixando uma falta de gosto na boca. Aprendeu sobre hipocrisia encontrando-a às margens da verdade que buscava cortejar em suas palavras e ações. Havia aqueles que de um modo ou de outro as contradiziam. Entendeu então que havia ainda aqueles que poderiam ser cínicos, que além e agir de forma contraditória, faziam-no sem a menor consideração, sem a menor dor ou ressentimento.
Porém, Bruna ia se deparando com tais sentimentos, situações e pessoas mas não sem desencontrar-se de si. Fazia uma espécie de avaliação criteriosa em que poderia encontrar-se com tais coisas e então distanciar-se delas se preciso.
Mas Bruna ainda não sabia o que era mágoa. Bruna era pessoa viajada, tanto reflexiva quanto mochileira. Conhecia uma série de pessoas, de cantos, encantos e desencantos. Mas Bruna foi ater-se com um rapaz. Este despertou-lhe os melhores gostos da vida, deu-lhe ânimo para viver, para investir em si, nele, na vida. Pela primeira vez criava projetos reais de futuro, de família. Esforçava-se para quebrar seus próprios limites e paradigmas, para alcançá-lo. Mas ele sempre estava um passo a frente ou dois atrás, nunca no mesmo andar. O fim tão previsível não lhe veio de forma horrenda. Foi um fim bonito, até. Mas Bruna nunca esqueceu aquele presente todo que lhe abrira para o futuro de si mesma.
Bruna compreendera as facetas do ódio, da indiferença, da hipocrisia e do cinismo, mas dava-se frente à mágoa, que era muito diferente daquelas que imaginava serem irmãs. A mágoa advinda dessa relação não era coisa ruim por si só. A mágoa tinha algo de bom que a sustentava, algo de muito bom. O passado foi repleto de aberturas, de realizações. Bruna não tinha motivos para sentir ódio ou ficar indiferente. Não houve hipocrisia ou cinismo. A mágoa surgiu da impossibilidade de continuar feliz. A tristeza veio do sentimento de ter feito e sido a melhor pessoa possível e de que isto não lhe garantira a permanência de seu grande amor.
Bruna tem de suar a camisa todos os dias. Reflete consigo mesma, e continua a viajar. Encontra-se diariamente com pessoas interessantes, com lugares fascinantes. Se relaciona, investe. Mas há esta mágoa que lhe tira lágrimas em cada lugar que visita, em cada encontro maravilhoso com uma pessoa. Sonha com aquele rapaz, em dividir com ele seus sorrisos, suas experiências, suas fotografias. Bruna sente-se paralisada embora continue se movendo. É um misto de saudade e vontade de caminhar. Um misto de tristeza de não ter e alegria de ter tido.
Mas Bruna não é esta pessoa queixosa sobre a vida. Embora não compreenda a mágoa, segue com ela, e com a dor e a chuva de água salgada com a qual se banha em cada parada. Há muita dor no mundo, acredita, e suspeita que talvez seu caminho seja enxugar lágrimas. Um dia estas suas mágoas hão de cessar.