terça-feira, 3 de junho de 2014

Ela

Nas calçadas do centro da cidade, na igreja, em um show de proporções internacionais e no carnaval... Lhe parece surpreendente que tantas pessoas possam dividir o mesmo espaço e o mesmo tempo, e possam, em paralelo, seguirem suas vidas de modo extremamente singular. Ficava a pensar sobre o que seria de sua vida se ela, por um desvio de rota, que no imaginário se tratava de uma rota certeira, se encontrasse com aquela pessoa que estava no banco da frente da igreja, ou com aquele artista do palco. Devaneios sobre como seria se fosse uma das tantas pessoas com quem cruzara no centro da cidade, ou mesmo aquela pessoa que beijara no carnaval, e que embora mal soubesse o seu nome, havia cruzado a sua vida. Era um susto pensar que havia uma parte dessas pessoas em sua história, e que havia sua história na destas pessoas, mesmo sem efetivamente terem estado de fato umas com as outras.

E é daí que fica a pensar sobre esta possibilidade mágica que é a de poder estar por vir algum encontro que mude sua vida, dentre estes tantos encontros. Será que alguém especial irá se sentar ao seu lado na igreja, e em meio a uma prece e outra, trocarão olhares, e no abraço final, partirão para uma pizza, e então amor? Será que em um carnaval, aquele beijo despretensioso não se tornará uma paixão que vingará para o resto da vida?  Ou seria de um esbarrão em um show, ou de um tropeço no centro da cidade? 

Ela sabia que precisava, antes de tudo, de fé. Esta era a âncora que jogava ao mar da vida todas as vezes que se dispunha de corpo e alma a orar. Não era gesto de desespero, como muito se vê por aí, era gesto de comunhão de sua vida com a vida deste mar de gente, e com o mistério que de repente nos une ou nos separa. A força de sua fé se sustenta não enquanto convicção fechada, mas em uma certeza aberta e, portanto, constituída de dúvidas. A solidez de sua fé, vem justamente do fato de não saber, e tomando posse disso é que tem forças para sair de casa todos os dias, ainda que a vida não lhe tenha dado aquilo que tanto almeja. Não fecha-se em si em oração de espera tolhida de resposta, ou em grito último por salvação. É a posse da tristeza do que não veio munida da alegria de reconhecer em sua vida tantas vezes a presença do inesperado que a faz continuar a buscar.

Nada disso impede que, sozinha em seu quarto, tente entender consigo mesma os motivos para ainda não ter encontrado um amor. Em meio a tantas possíveis respostas que vêm à sua mente, é na medida em que não se permite entregar às respostas que se dá a si mesma, que reconhece a infinitude. Dorme em paz pois ali, no escuro e sozinha em seu quarto, já está de alguma forma a se encontrar com seu amor.