Os medos noturnos surgem como uma espécie de diário da experiência. Há noites em que o sono simplesmente se vai, e é como se ele deixasse com a gente um caderno de anotações sobre tudo aquilo da vida que nos esquecemos diariamente, juntamente com as perguntas sobre o que não sabemos, às quais adiamos nos fazer.
É um medo que atravessa o medo infantil, que toca o imaginário e a mais pura realidade de temores como os de abandono, negação, solidão e morte. É um medo que nos faz perguntar de novo sobre as coisas que estamos vivendo, ao colocar em xeque algumas crenças que à luz do dia parecem derradeiras. Mas às vezes são só incômodos leves que com uma oração ou uma tática tais como as de contar ovelhas, vem e passam. Ainda assim são importantes. O medo nem sempre é um grito, pode ser sussurro baixo, difícil de ouvir, mas preciso no seu apontamento e incômodo, e quando assim, ganha forma lentamente.
Não cabe na luz, a tristeza que pede licença quando a porta do quarto está fechada e o barulho da cidade já não é mais tão ruidoso quanto o que vem das profundas ruínas do coração. As ruínas carregam as frustrações, as mágoas, as dúvidas... Seus inquilinos acordam à noite para lembrar que não são só os espelhos, os amigos, os médicos, as pesquisas, os protocolos e, nós mesmos que dizem/dizemos quem somos.
Nós somos tão noite quanto dia, e as noites mal dormidas nada mais são do que ruídos de nossos dias corrompidos.