Mas era claro. Tinha em sua fronte uma grande e cômoda vida. Tudo ganho, nada por fazer. Claro era que não estava feliz. Entendia como óbvio que a vida resolvida fosse o seu intuito, apesar de que duvidava se não era apenas o medo tomando ópio para aliviar a falta de raízes de seu passado.
Uma bela dúvida pairando em sua cabeça embora tudo desembocasse em uma corrente perfeita a desaguar em um mar de a-mar ou de mar-asmo. O sopitar dos poros, o cheiro forte do suor, os pelos em queda , o olhar profundo e fugidio, a fisionomia gélida. Uma harmonia bonita de tão dura, singela e opaca. Sua fronte e seu todo em um balanceio leve de levar num só gesto a doce maciez e a bravura.
Estranho é ser assim, porém, arriscando-se apenas ao sabor do que a vida produz. Pouca construção, mas a espera de uma névoa sobre o nariz e um espirro capazes de reascender a chama apagada outrora no outono. Era claro como o seu comodismo, a sua plasticidade. Movível por motores qualitativos, por desejos ardentes, por pequenas erosões na vida, por intimidades. A flor mais sensível nascida do ventre da carne mãe. Que bela e amarga é a vida.
A poeira do asfalto sobre o móvel da sala é um erro vil, um molde da vida que escapa a todo fio que insiste na retilínea estrada. Sempre ponte, este lugar de passagem, o lugar das brevidades, das trocas, das esperas. Sempre aponta o adiante e fica para trás. Olhando de cima, o precipício, o rio ou o mar. Olhando debaixo, o céu. Profano esforço para fazer-se santo e sagrada profanidade da vida cotidiana abraçada nos pés de cadeira, nos laços de fitas em cabelo e sapatos e nas charmosidades das esquinas dos olhos, e dos tapetes e asfaltos esburacados. A vida sedutora em seus detalhes.
Como chama e manda o que foi firmado, o cômodo nada tem de criado. Mudo o criado, antes fosse físico do que em vida descuidado. Fosse andar por outras bandas, saísse de encruzilhadas e com as feridas abertas e escancaradas. Mas fechar-se é mundo também. Abertura em cadeado.