(...) e ali, em meio a
uma praça movimentada, me sentei em um banco gelado, ofuscando a propaganda
estampada em seu concreto, e me coloquei a olhar o caos ao redor e toda a vida
estranha a mim a se movimentar: pais levando filhos e suas merendeiras
intergalácticas rumo à escola, homens engravatados, aparentemente sérios, com
seus cigarros a discutir política e questões econômicas ou empresariais e um
grupo de adolescentes falando, ou melhor, gritando seus amores. Ali havia
também alguns pássaros, daqueles de praça, sem nome mesmo, a procurar
desesperados, em meio a pés e passos, quaisquer vestígios de alimentos. Não
havia me dado conta, porém, que às minhas costas estavam sentadas uma senhora e
uma criança a conversar. Talvez elas nem estivessem lá quando me sentei, o fato
é: não as tinha visto. A menina tinha a voz doce e fina, e não devia ter mais
do que dez anos, já a senhora, dona de uma voz lenta e pausada, me
pareceu já ter ultrapassado a casa dos sessenta. E foi assim, em um lapso de segundo, ou
talvez em um intervalo de tempo que os físicos ainda não conseguiram decifrar, no qual todas as coisas inexplicáveis acontecem, que me percebi distante de tudo
à minha frente. De olhos abertos, eu estava ali como quem não estivesse, mas paradoxalmente me senti estando ali bem mais do que antes. A partir daquele momento minha atenção pairou
a ouvir a senhorinha a dizer:
- É minha filha, isso me cansa muito mais do que qualquer trabalho, muito mais
do que qualquer dor que eu tenha pelo corpo.
Tal frase foi uma
espécie de convite, o provável acontecimento que me fez deixar de lado todo
aquele furor sob a qual continuavam deitados os meus olhos. Estes que já não
‘viam’ tanto quanto meus ouvidos. E então a menina, com um tom de voz aparentemente
angustiado respondeu:
- Sabe vó, eu não me
sinto cansada de trabalho, até porque nunca trabalhei, e nem mesmo sinto dores
no corpo, mas sinto que tem algo que me aperta às vezes sabe? Não sei dizer o
que é. Não sei falar de um jeito melhor, mas eu me sinto assim.
E a senhora prontamente
respondeu:
- Minha querida, acho que te entendo. Você
não precisa falar melhor do que isso. Pra quê se angustia para falar mais?
E a menina, no que
envolve toda a inocência e o saber de uma criança respondeu como quem explica o
óbvio:
- Ora, é pras pessoas
entenderem melhor. É tão difícil fazer os outros entenderem exatamente o que a
gente quer dizer vó!
- Bem, você não precisa
falar melhor. Basta que fale, ou nem isso. As pessoas entendem as coisas de tantas maneiras quanto você imaginar. O problema minha querida, é que a
cada verbo ou substantivo que a gente fala, os ouvidos parecem pedir um
adjetivo.
Sem entender muito bem,
a menina perguntou:
- Que tem a ver os
adjetivos vó?
- Bom, o verbo “ser” e
o substantivo “alguém” juntos, são um primor de Deus. Que dirá quando acrescentamos uma preposição e outro substantivo: “ser alguém para
alguém.” Ah minha querida, isso é o que faz a diferença em qualquer conversa, ainda que a gente não pronuncie de boca cheia estas frases.
Olhei para trás como
alguém que não quer nada, e pude ver entre as duas faces o sorriso carinhoso da
senhora a completar seu pensamento voltado para o olhar curioso da menina:
- Adjetivos são
dispensáveis minha querida, ainda mais quando a gente reconhece o sujeito na
frase.
A menina, cada vez mais
confusa, como areia entre os dedos escapou em
brincadeira:
- Ah vó! Acho que ainda não tive essa aula de português!
E a senhora, paciente,
sorriu para a menina como em um abraço à brincadeira, e afirmou:
- A vida é uma grande aula. De repente a gente aprende. De repente a resposta salta aos olhos. Em vida sempre é tempo de aprender, e não há gramática que a explique.
Em meio a gargalhadas, as duas se levantaram e seguiram seus rumos, e eu, quando menos esperava, ou quando mais esperava - penso que eu esperava por isso há muito - naquele mesmo espaço de tempo que os físicos não ousaram tocar, apre(e)ndi.
Em meio a gargalhadas, as duas se levantaram e seguiram seus rumos, e eu, quando menos esperava, ou quando mais esperava - penso que eu esperava por isso há muito - naquele mesmo espaço de tempo que os físicos não ousaram tocar, apre(e)ndi.