Não me parece simples
pensar que do momento em que nascemos ao momento em que morremos somos um só e
que contemos uma continuidade. Penso ainda que poucas são as vezes que nos atentamos para o
todo do qual nos tratamos, sobre a história deste "ser mim mesmo", e em como, por
mais que nossas vivências ao longo do tempo sejam muito distintas,
permanecemos.
Permanecemos enquanto
buscamos de modos muito particulares reconhecermos coisas, pessoas e atos que
nos são valiosos e que de modos também diversos, nos realizam. Na vida e na
morte, há permanência, e ter consciência disto nos coloca diante da vida de um
modo muito mais cuidadoso, nos tira do conforto que a transitoriedade aparente
nos coloca. A responsabilidade que nos acarreta pode parecer um peso a mais
para a vida, mas estou convicto de que ao contrário, nos possibilita viver de
um modo mais leve e muito mais vivo.
Peço aqui a licença de
trazer como exemplo uma experiência pessoal que vivi há algum tempo. O que vivi
foi uma paixão não correspondida, e subsequente a isto, alguns ressentimentos
que me provocaram a me distanciar por um tempo para que estes se esclarecessem
melhor ou se dissipassem. O tempo de distância fez com que os sentimentos
esfriassem, tanto a paixão quanto o ressentimento. Não que esta seja a forma
certa de proceder com essas coisas, quero dizer que foi isto o que me ocorreu
na época.
Mais recentemente uma
nova aproximação, ocorrida naturalmente, fez vir à tona tudo o que estava em
jogo quando me apaixonei. Aqueles mesmos gestos, atos, e até mesmo incoerências
que me fizeram no momento de paixão ficar perdidamente encantado, me encantaram
novamente, e as mesmas coisas que me provocaram certo rancor, voltaram a me
incomodar. Ambas as vivências não tiveram mais a mesma intensidade, que
concerne às paixões, mas diziam respeito aos mesmos pontos. O que ficou,
percebi, foi o que somos. Eu, e minha busca que se realiza e que se incomoda
nas características do outro, e o outro e suas características tão próprias e
que como tais, permaneceram permitindo que eu pudesse as ver por
outro ângulo.
Tal percepção me fez
sentir como que em um estado contente de paz, algo que em minhas melhores
palavras, descreveria como uma alegria duradoura, um estado mesmo, não uma
passagem. Entendi que o que está em jogo não é a paixão passada ou a adimiração presente, mas o que tem
de belo no próprio do outro a ponto de me realizar enquanto eu. Quero deixar
claro que não eliminei assim a dor que o “poderia ter sido” carrega, mas enfatizo que, ao olhar para o todo dessa história, fiz uma experiência de encontro com a
permanência que me é característica, e que escancara a minha busca muito além da dor.
Portanto, ao me ver enquanto história, sinto uma certeza do meu eu enquanto um grande e poderoso SOU que perpassa a paixão e o ressentimento, a alegria e a dor do passado; e a esperança e ansiedade quanto ao mistério do futuro.
Portanto, ao me ver enquanto história, sinto uma certeza do meu eu enquanto um grande e poderoso SOU que perpassa a paixão e o ressentimento, a alegria e a dor do passado; e a esperança e ansiedade quanto ao mistério do futuro.