Um grande incômodo que tenho quanto às relações afetivas é o de que, em muitos momentos, as pessoas utilizam-se do famoso jargão "estávamos em passos diferentes" para concluir que a relação está ou estava fadada ao fracasso.
Pois bem, não quero aqui entrar em pormenores das escolhas pessoais, mas ao pensar sobre relações, eu me pergunto até que ponto não estamos, todos, em passos diferentes uns dos outros. Não duvido também que os passos possam se alinhar, ou melhor ainda, se encontrarem já em um justo alinhamento. Acredito que estes aconteçam e que, além disso, sejam grandes espetáculos, tais como os filmes românticos e as fantasias de amor que toda pessoa minimamente humilde admitirá já ter tido. Então é claro que estes encontros são os que mais vislumbramos, pois realmente são um espetáculo da natureza. Trazem consigo a beleza de que, muitas das vezes, as coisas simplesmente nos são dadas, caem no nosso colo. É ótimo pensar que o amor vai vir e eu não vou precisar andar dois passos pra alcançá-lo, ou mesmo frear minha caminhada pra esperar que o mesmo alcance o meu passo.
Mas quanto a essa discussão toda, tendo a pensar como Caetano Veloso em seu "o quereres', quando cantou "mas a vida é real e é de viés, e olha só que cilada o amor me armou..." É que apesar de acreditar nos encontros mágicos e sem vieses, esses são, constatadamente, raros. Por outro lado, me parece haver um tanto de tampas e um tanto de panelas que, insistentemente procuram sem sucesso o seu encaixe. É um tanto de pés que caminham desordenadamente em busca de encontrar outro par de pés que estejam exatamente no mesmo passo que o seu, e não encontram..
Meu incômodo quanto a estas questões veio de encontro com o que uma pessoa querida disse um dia ao discutirmos uma relação: Que os dois estão em passos diferentes, é uma verdade. Ambos sabem disso. Mas a questão que fica para mim é: para onde cada um deles está caminhando?
Achei esta sacada genial! Muitas vezes estamos em passos diferentes, efetivamente, mas se estamos caminhando na mesma direção, andar juntos têm leveza, pois você sabe que o horizonte, a linha de chegada é a mesma. Se vocês caminham em direções distintas, desista. O tal do encontro não vai mesmo acontecer. É um alerta genial também no outro sentido: Quantas vezes nós alinhamos o passo com alguém, mas ficamos sem entender o que deu errado, se ambos estavam no mesmo passo, não é mesmo? Pois bem, eles estavam caminhando em direções opostas.
É um grande desafio ficar com esta encrenca. Estamos olhando tanto para os pés, que esquecemos de olhar para onde caminhamos, para nossa estrada, para onde queremos chegar enfim. E aí, tem gente na frente ou gente atrás, caminhando no mesmo sentido, só que olhando para os pés, a gente nem vê. Nós nos perdemos ao procurar a tampa exata para nossa panela, e se esquece que o que a a gente quer mesmo é que o que quer que cozinhemos fique bom. Não quero dizer aqui que qualquer tampa sirva para toda panela, longe disso. Mas insisto que olhemos para isso, e que você me diga: o arroz andou sempre alinhado com o feijão? Mas não é que caminham na mesma direção!