quinta-feira, 29 de agosto de 2013

D. existir.

"É para proteger o coração?"

D. nunca se esquecera de tão precisa pergunta que ouvira em um corriqueiro dia de trabalho. Os ombros curvados para frente e a cabeça baixa denunciavam o ímpeto do corpo para defender seu centro. "De quê?" foi o vento vindo de um sopro que, após um choro tímido, o derrubou.

"Você sumiu!"

D. ouvia vez em quando de um velho amigo, um colega de classe, um primo, mas ignorava a frequência do sinal emitido pela onda da frase. Sua força só foi clara no dia em que cinco pessoas, sem a menor conexão, a pronunciaram em sequência. "Você sumiu" ganhava ares não apenas de companhia, de disponibilidade, de saudade. Era mais do que uma afirmação, era uma dúvida: "Onde está o que mais te caracteriza?" As pessoas só não o viam, as pessoas não o reconheciam mais.

"Não perca o brilho que você tem nos olhos"

De onde menos esperava, ouviu tal anunciação. Sutilmente sentiu como se alguém houvesse passado o dedo sobre o baú em que guardava seu maior tesouro, e tirasse pó. O medo beijava o alívio. Na boca, o agridoce. No rosto, o desconcerto. Era o chamado da vida, este momento raro em que o alguém lhe disse "tu", e ele foi obrigado a olhar para si e dizer "eu". 

"Eu te amo"

Afirma-ação da espera dos olhos que brilham. D. olhava para fora e esperava o dia em que pudesse ouvir tal confirmação, mas não vinha, não veio. Enquanto isso, seus ombros se curvavam e sua cabeça ficava cada vez mais baixa. O corpo de D. escondia seu coração e apagava seus olhos. Este era o "você", do "você sumiu", que lhe diziam. O alerta vindo do "não perca", anunciava uma faísca do que sumiu, mas que ainda existia.

"Desisto"

Não era fácil para D. abrir mão de sua espera por aquilo que denominava "amor", e nem de todos os "Você é lindo, inteligente, incrível." - elogios raros, e diga-se de passagem, sinceros. Eram o alimento da espera, mas o "eu te amo" não vinha, não veio.
Doeu, mas desistir, como D. a pouco imaginava, não era a facada final em seu coração, eram só os ombros, consoladores, se curvando em abraço. Desistir era o abraço e o beijo entre medo e alívio, era o agridoce, o desconcerto. Era o chamado da vida.

- É para proteger o coração?
- Não, é pelo brilho nos olhos.

"D.existe" (...)