terça-feira, 29 de outubro de 2013

De(s)colar

Eis que um pequeno pedaço de retalho, costurado em meio a uma colcha de outros tantos retalhos brancos, resolveu se descolar. Tinta vermelha no rosto envergonhado do retalho até então pálido e plácido. Este que da colcha branca  des-fazia-se vermelho pelo notar dos outros tantos retalhos a lhe retaliar.

Era uma vida rotineira aquela do retalho trabalhador. Colado a sua realidade amorfa, de um regurgitante e reticente trabalho, o trabalho de ali sempre estar. E o retalho, aos poucos e linha a linha fazia o novo e recompensador trabalho de se separar.

A realidade daquele retalho, determinava sempre o seu estar; determinava colcha, lençol ou pano; determinava frustrado, medroso ou risonho. Agora determinado, o tal retalho não queria mais que algo o determinasse. Retalho que era, retalho foi ser.

Ao sair do emaranhado de retalhos que retalhos mais não eram por já outra coisa ser, aquele pequeno retalho foi tentado a ser recosturado, mas seu lugar era descolado, era solto. Não só de solitário, de independente, de mandatário, só de uno, sui generis, incomparável.

Sua missão como retalho vermelho, não mais pálido, não era ser colcha branca ou outro branco retalho. E o retalho nem sabia seu lugar, e não saber foi o que o fez ir procurar.

Descolado o retalho, quem passava na rua e o via ao vento voar, nem parava a reparar. E quem reparasse naquele retalho, só faria perguntar: Que faz retalho desses, longe de uma costura ou de um modelo de roupa simples ou vulgar? O retalho faz movimento, saiba sinhô ou sinhá. Retalho este vai ao sabor do vento, retalho que descola de colcha pronta vai só ao relento. Ao sair da última linha da costura, o pouso do retalho é ir de encontro ao vento e em brando movimento de(s)colar. Vermelho o retalho, que não sabia ao certo o que foi procurar, o que fez foi se apaixonar.