Parece um desfecho tolo, esse desfecho que é não ter feixe pro meu zelo. Está estampado como selo e carimbo de tinta tatuada em algum lugar debaixo da pele, às vistas de todo e qualquer olhar, menos ou mais apurado. Não tem jeito com você. Todo movimento tolo, idiota, e bobo, todo erro, toda farsa, só faz revelar caprichos, conteúdo do meu desejo. Este que é desejo sem rédeas, inteiro, feito de amor e impureza. Pena ser desejo amarrado, entregue à sua inquisição.
E queria que dissesse o quê? Não havia pergunta para que eu respondesse. E é claro que aquelas folhas em branco que não ousamos escrever juntos ficariam entremeadas pelas escritas, estas feitas individualmente e que remetemos um ao outro. Aquelas verdades deram-nos reticências que, por três pontos finais, re e re e reafirmaram o final.
É aqui que a velha história de que "os outros são os outros e só" completa seu sentido. É nesses dias que não datam mais como passado, presente ou futuro. Parece que tanto quanto remexo o passado, atuo o presente e imagino o futuro, há tua presença, que é a ponta da linha do novelo embaraçado em meu peito. E eu tento fazer deste novelo um instrumento criativo de costura, e na ponta ponho agulha. Mas a agulha se volta contra mim e as fincadas são agudas em toda tentativa de remendo que eu possa tentar fazer. Eu ainda não sei o que queria que eu dissesse a você.
Foste esta luz que nem o pôr do sol de fundo inibiu a beleza. Foste alívio embora me embebecesse quantas vezes em tristeza. Foste paz e fortaleza, embora não me deste chão para fincar minhas hastes. Foste minha angústia na dúvida, mas foste o prazer da insistente presença em companhia. Foste dor na imperfeição dos atos e foste beleza da tentativa fundada em pureza. É que deste nada que tiveste pra me dar, fez-te tanto. E só por ter sido o que tinha para ser é que continua sendo.
E queria que dissesse o quê? Só me vem este breve devaneio e o receio: você não vai ouvir. Não conseguiria colocar-te em palavras e, se pudesse mesmo, me casaria com um poema. Estaria resolvido então o meu desprazer, desembolaria o novelo, e tudo quanto há pra ser. Eu amaria demais o poema, eu o amaria como a você.