Abre a primeira cerveja. Pega o anel da lata e como anel que sela casamento, este não sai de sua mão. Sentado em uma mesa de bar, esta é uma distração que lhe parece melhor do que as tecnologias móveis. Brinca com o anel de lata e a esta altura o jovem rapaz foi parar em Saturno. Que inveja tem de seus anéis. Órbita.
O papo no bar continua, e toda conversa é mediada por respostas prontas. O rapaz mostra habilidade social, É alguém que aprendeu a dizer "bom dia" e "obrigado", "com licença" e "por favor". Não é nada difícil para ele ser tocado apenas na sombra de seu ser e responder dali. O bom disfarce por sobre a mesa enquanto os dedos entremeiam o tal anel de lata por dentro e por fora da unha. Inquietação que não pode ser vista, que está por debaixo da mesa e da pele da figura aparentemente calma, pacífica e serena
Mas alguém notou que o rapaz bebia sua cerveja rápido demais. Calma lá! Queres entorpecer-te assim tão rápido? Que há na vida da qual quer se livrar tão depressa? A realidade colocada sob a mesa do bar escancara o que as mãos por debaixo dela não ousam tocar. E sem resposta diz "sede". Pede um copo d'água. Tarde para disfarçar.
Seu traçado vai ficando claro. A esta altura faz brincadeiras e insinuações sexuais. É a forma de fazer rir e ficar na banalidade do vulgar. É um sedutor criativo embrulhado em um papel de capa lisa, bonita e chamativa. E com a lábia monta uma figura, um manequim de si. Não é consciente, mas tenta ludibriar. Acontece que suas mãos já estão sobre a mesa e o único anel se multiplicara. Faz desenhos, raspa a unha e o dedo, pressiona a palma da mão. Um gole, e outro e tantos. A bebida o solta e a figura com traçados pouco claros, começa a se mostrar.
A noite pode terminar em festa. Talvez beije uma ou mais pessoas. Talvez volte carregado para casa, ou nada disso. Pode ser que apenas se despeça e vá dormir. Vai para casa pensando ter se divertido e mostrado só uma sombra do que é.
No caminho de volta, de uma maneira ou de outra, coloca a mão no bolso e encontra um anel de lata. Costuma ao menos um guardar. Leva para casa sempre um aviso: Algo por dentro chora, e isso não se esconde. Silhueta não tem sorriso.
