A brisa gelada, o céu nublado e o
mar: azuis. Seus olhos, castanhos, faziam o contraste com o seu humor e todo
aquele clima formado em tons que variavam do castanho ao azul e o predomínio do cinza. O dia e Ana estavam tristes.
Da ponte, observava mais um navio carregado chegar à terra dos Beatles para desembarcar em terras estranhas as novidades. Sentia-se estrangeira como aqueles navios. Mas não dizia respeito à Southampton, dizia respeito à vida.
Olhando para o porto e para
aquele trânsito de barcos, ouvia ao som de New Radicals “Did the capitain of
the titanic cry?” Certamente é uma pergunta intrigante, pensava ela, à beira do
local de onde o famoso navio partira para a fatídica viagem que não alcançou o
seu destino. E novamente se perguntava "Será mesmo que não?"
Ana é moça bonita, diriam os
“boys” do Reino Unido. Seus cabelos curtos e desgrenhados pouco se moviam com o
vento que lhe atingia na ponte. Pensava sozinha em como a vida era estranha.
Estava nesta grande cidade portuária, onde milhares de coisas se moviam de
lugar à todo instante. Estava sobre a ponte, lugar de passagem de um lugar a
outro. Pensava também no Titanic e na interrupção abrupta do grande navegante por
uma camada de gelo, que sabe-se lá como foi formada, mas que era capaz de frear
o destino de uma viagem dos sonhos.
Ana era menina rica, tinha na
mochila aparatos caros de fotografia, bem como de outras espécimes. Mas em suas
mãos, apenas um pequeno cartão postal com uma foto de um dos símbolos da cidade, ainda
intacto, e a ideia em sua cabeça de que se não seria mais bela uma imagem do Ttitanic partido, isto é, o drama do destino não estabelecido, mas factual. A realidade
nua e crua de uma vida monstruosamente grande e inesperadamente findável.
Pegou o cartão e o jogou no mar.
Sentia que não havia motivos para enviar aquela imagem idealizada para alguém que um dia ousara também idealizar. Ana esperava que ao cair sobre a água, o cartão afundaria como o navio, e afundaria como o
destino sonhado por ela, um dia afundara. O cartão tinha o peso de uma âncora.
Ana perdera o rumo sem aquele velho destino, e procurava agora um lugar para
se firmar.
Observou o cartão até o mesmo
sair de suas vistas enquanto se indagava: “porque não afunda?”
Voltou a caminhar sobre a ponte
Itchen. O barco de Ana não afundara. Caminhando, Ana só tinha uma resposta: O capitão do Titanic chorou. E caminhando sob e sobre o azul, seus castanhos choraram.