segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O que você faria se não tivesse medo?

Estava parado na estação. Diante dos trilhos, observava os vagões que à sua frente insistentemente passavam. Sem o truque do famoso "mineirês", de súbito perguntou-se: que trem espero, afinal?

Sentado em um desses bancos de madeira, viu-se sozinho, acompanhado apenas de um jornal com algumas notícias de eventos e daqueles que agiam na cidade: "pobres de espírito". E lá estava o avô de vinte e poucos anos, ressentido. A mágoa lhe deixava sem forças pra sair da estação e ir para a cidade ou mesmo para pegar algum vagão. Indiferente sentia sem razão que tudo, "tudo é previsão".

Mas errava, e como errava. O pobre coitado mal sabia distinguir se faria chuva ou se o frio a substituiria naquele dia em que ele esperava pelo sol. Previa, e assim, em fantasia, estava sempre no ponto, e estava na estação. Mas o que é o ponto concreto para um andarilho sem movimentação?

(...)
Levantou-se e olhou bem para o tempo, verificando que mais uma vez errara. Mangas largas para mais um dia ensolarado na estação. A dor da contradição.

Tirou do bolso um velho bilhete que dizia "Foda-se".  Era o bilhete de um novo passageiro que descera de um trem e o deixara como aviso nas inescrupulosas palavras: "acorda vovô, você só tem vinte e dois." Alerta de que não era apenas questão de sol ou de chuva. Já não conseguia prever sequer o tempo em que se encontrava seu coração.

O que sabia agora o até então sabichão? O bilhete era o ponto final, sentia muito ao verificar sua imperfeição.

Se aproximou a ponto de ficar à beira do vão que dividia a estação dos trilhos. Olhando para o chão, ouviu o som, o sinal de que se aproximava mais um trem. Tinha o olhar fixo, perplexo, sentia um misto de medo e coragem, e na cabeça um único pensamento: "É chegada a hora de partir".

Fechou os olhos e deu um passo a mais, o passo que faltava. Quem estava atrás dele viu apenas o bilhete, passageiro, ficar no piso da estação.

Um passo adiante, se lançou ao vão. Vertigem!

Mas espera, não caiu. Entrara no primeiro vagão.

(...)
Alçou as mangas compridas, pois a esta altura entendia: "Prevejo agora que na vida, não há como haver previsão." Colocou a mão nos bolsos e não achou o bilhete. Embarcara apenas com o coração.

Da janela do trem, mantém agora o olhar suspenso e surpreso nas nuances da estrada. Vê o distanciar-se da velha estação, e sem lamúrias de despedida, acolhe o reconhecimento: "Sinto muito! Aqui vou eu, pois sinto muito."