sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Ainda, bem

Essa coisa de amor próprio nunca fez muito sentido pra mim. Cresci entendendo que se amamos o outro então amamos a nós mesmos e, o que oferecemos, recebemos em troca. Amor próprio sempre soou como uma espécie de altruísmo egoísta. Era estranho pensar que eu tinha de fazer coisas por mim, para mim, me tornar legal para mim, não me parecia bastante.

Me lembro de uma vez na infância em que uma senhora passou na porta de casa pedindo roupas. Naquela ocasião estava sozinho em casa, e como já a conhecia, resolvi eu mesmo fazer as doações que costumeiramente via minha mãe fazer. O fato foi que eu a vi com seus filhos, da minha idade. Olhei para meus brinquedos e dei todos àquele menino, todos, até mesmo aqueles aos quais eu era muito apegado. Me lembro de como me senti feliz com aquele ato. Minha mãe, hoje em dia, acha engraçado, mas na época me explicou que deveria doar apenas uma parte das minhas coisas, não tudo. E claro, no dia seguinte eu queria brincar e não tinha nenhum brinquedo. Mas não não foi o bastante para entender. 

"Nada do que é dele é dele." ouvi recentemente de uma pessoa que pediu informações sobre mim para uma taróloga. E nada do que é meu é meu, mesmo. Ouvi isso com certa emoção, e segui acreditando que esta forma e levar a vida, sob a forma de doação e entrega fazia parte de uma inteireza, de uma nobreza e simplicidade de coração.

O problema é que no dia seguinte à doação, eu queria brincar e não tinha mais nenhum brinquedo. Depois de entregar o coração, eu queria amar, e não tinha meio para tal. Depois de um tempo olhando só para o outro, estranhei-me ao espelho. Que restou de próprio no meu amor?.

"Amor próprio, Eduardo, é amor doado pelo que de próprio foi-te dado."