terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Uma página a mais, ou a(o) menos

1
Abdicar de algumas coisas na vida é crucial, é requisito básico para que se possa delinear alguns caminhos em detrimento de tantos outros. Por necessidade, fuga ou preguiça, decidiu ficar mais uma noite em casa. Já são muitas, tantas que já perdera a conta. Ausenta-se de um evento e outro para dormir, assistir um filme ou ler um romance, ao invés de ir a uma festa e tentar viver um; ao invés de encontrar-se com seus amigos; ao invés de deixá-los vir ao seu encontro.

2
Desliga o celular ou deixa-o ligado, sem atender. Manda uma mensagem de última hora, inventa uma desculpa e pronto. Não há nada que nos impeça de ir ou ficar quando o que vem de dentro imprime sua resposta, própria e indelével. É provável sim que um acontecimento ou outro alterne a fonte e então o destino, e talvez seja este o grande trunfo dos insistentes amigos que, preocupados, tentam convencer-lhe a mudar o plano constante de permanecer no ócio.

3
Aqueles que querem sua presença, certamente já o viram com bons sorrisos e com lágrimas tão boas quanto. O conheceram quente, ardendo em carne viva, não em plena harmonia, mas em fluidez. Este que, ao olhar-se, diria “sou eu”. Quando dizem que sua presença fez e faz falta, ele não muda sequer a expressão. Nada muda. Que presença? É quase como se ele pedisse por informações de alguma pessoa que sabe quem é de vista, mas pouco ou nada sabe dela. Quando lhe falam de si, ouve como se fosse um desenhista de retratos-falados guardando aquelas informações como elementos importantes, sem que nada efetivamente o toque. Ele sabe, melhor do que ninguém, que sua presença faz falta, pois faz falta para ele mesmo, e como.

4
Ao pensar um pouco sobre sua situação atual, observa com cautela suas vivências passadas e já não consegue pontuar razões como outrora. Desilusão amorosa, saudade, carência, angústia. Absolutamente nada que já coube no conceito é passível de subscrever o fato. A verdade é que se sente tranquilo, mas não em paz, sente-se bem, mas não feliz, sente-se consciente, mas não sábio, sente-se honesto, mas não assertivo, sente-se cuidadoso, mas falta-lhe amor. Como pescador que coloca no anzol veneno ao invés de iscas e que, ao fisgar as presas, mata imediatamente toda sua pescada.

5
Acorda cedo todos os dias e vai trabalhar. Em sua rotina, as alegrias dos últimos meses se resumem aos almoços seguidos de cochilos. O prazer que é seguido da dor de acordar e perceber-se vagando, a tristeza que é substituída por mais uma dose de alimentos ou por uma espera incessante pelo próximo sono. E assim engorda, perde o vigor. Que mais poderia dar-lhe prazer? Tentara de tudo: Literatura, textos de psicologia, de auto-ajuda, filmes, terapia, masturbação, musculação, nutricionista, dermatologista, corridas, álcool. Há uma outra lista enorme que poderia adicionar ou colocar no lugar de qualquer uma destas tentativas, ainda muito caretas. Em sua cabeça passa a ideia de mudar-se de casa, abandonar o atual emprego, adotar um cão, sair para boates e bares sozinho, viajar para o exterior, mudar completamente o estilo de vida, tornar-se espírita, viver em uma comunidade alternativa, relacionar-se com várias pessoas, entorpecer-se com uma variedade de drogas, ligar para algum ex, abdicar de seus valores, voltar para a casa dos pais, e a maior delas: tentar ser feliz como está.

6
É claro que as pessoas sentem falta dele e é claro que isso não o toca. Ele faz falta para ele mesmo, isso sim dói. Portanto, ficar em casa mais uma noite não lhe é violento, não lhe machuca. Está só e consigo, e é como se estivesse procurando-se dentro de si mesmo. Vão dizer que esta busca está fadada. Obviamente que, para nos tornarmos nós mesmos, precisamos do outro. É muita pretensão tentar encontrar-se sozinho. A distância do outro é uma linha que nos divide tanto quanto nos cola. Eis seu desafio: sair de casa e levar nada, levar-se como quem leva para o piquenique um prato vazio.

7
E aí vai ele escrever mais uma página da sua história, mas ele não sabe o que escrever. Tropeça nos pontos finais, nos novos parágrafos e, principalmente nas muitas interrogações. Enquanto não sabe e nem pode encontrar respostas, escreve sobre o que nem sabe que procura, mas já está a buscar.