1
Abdicar de algumas
coisas na vida é crucial, é requisito básico para que se possa delinear alguns
caminhos em detrimento de tantos outros. Por necessidade, fuga ou preguiça,
decidiu ficar mais uma noite em casa. Já são muitas, tantas que já perdera a
conta. Ausenta-se de um evento e outro para dormir, assistir um filme ou ler um
romance, ao invés de ir a uma festa e tentar viver um; ao invés de encontrar-se
com seus amigos; ao invés de deixá-los vir ao seu encontro.
2
Desliga o celular ou
deixa-o ligado, sem atender. Manda uma mensagem de última hora, inventa uma
desculpa e pronto. Não há nada que nos impeça de ir ou ficar quando o que vem
de dentro imprime sua resposta, própria e indelével. É provável sim que um acontecimento ou outro alterne a fonte e então o destino, e talvez
seja este o grande trunfo dos insistentes amigos que, preocupados, tentam
convencer-lhe a mudar o plano constante de permanecer no ócio.
3
Aqueles que querem sua
presença, certamente já o viram com bons sorrisos e com lágrimas tão boas quanto. O
conheceram quente, ardendo em carne viva, não em plena harmonia, mas em fluidez. Este
que, ao olhar-se, diria “sou eu”. Quando dizem que sua presença fez e faz
falta, ele não muda sequer a expressão. Nada muda. Que presença? É quase como
se ele pedisse por informações de alguma pessoa que sabe quem é de vista, mas
pouco ou nada sabe dela. Quando lhe falam de si, ouve como se fosse um desenhista
de retratos-falados guardando aquelas informações como elementos importantes,
sem que nada efetivamente o toque. Ele sabe, melhor do que ninguém, que sua presença faz falta, pois faz falta para ele mesmo, e como.
4
Ao pensar um pouco
sobre sua situação atual, observa com cautela suas vivências passadas e já não
consegue pontuar razões como outrora. Desilusão amorosa, saudade, carência,
angústia. Absolutamente nada que já coube no conceito é passível de subscrever
o fato. A verdade é que se sente tranquilo, mas não em paz, sente-se bem, mas
não feliz, sente-se consciente, mas não sábio, sente-se honesto, mas não
assertivo, sente-se cuidadoso, mas falta-lhe amor. Como pescador que coloca no
anzol veneno ao invés de iscas e que, ao fisgar as presas, mata imediatamente
toda sua pescada.
5
Acorda cedo todos os
dias e vai trabalhar. Em sua rotina, as alegrias dos últimos meses se resumem
aos almoços seguidos de cochilos. O prazer que é seguido da dor de acordar e
perceber-se vagando, a tristeza que é substituída por mais uma dose de
alimentos ou por uma espera incessante pelo próximo sono. E assim engorda, perde o vigor. Que mais
poderia dar-lhe prazer? Tentara de tudo: Literatura, textos de psicologia, de
auto-ajuda, filmes, terapia, masturbação, musculação, nutricionista,
dermatologista, corridas, álcool. Há uma outra lista enorme que poderia
adicionar ou colocar no lugar de qualquer uma destas tentativas, ainda muito
caretas. Em sua cabeça passa a ideia de mudar-se de casa, abandonar o atual
emprego, adotar um cão, sair para boates e bares sozinho, viajar para o
exterior, mudar completamente o estilo de vida, tornar-se espírita, viver em
uma comunidade alternativa, relacionar-se com várias pessoas, entorpecer-se com
uma variedade de drogas, ligar para algum ex, abdicar de seus valores, voltar
para a casa dos pais, e a maior delas: tentar ser feliz como está.
6
É claro que as pessoas
sentem falta dele e é claro que isso não o toca. Ele faz falta para ele mesmo,
isso sim dói. Portanto, ficar em casa mais uma noite não lhe é violento, não
lhe machuca. Está só e consigo, e é como se estivesse procurando-se dentro de
si mesmo. Vão dizer que esta busca está fadada. Obviamente que, para nos
tornarmos nós mesmos, precisamos do outro. É muita pretensão tentar
encontrar-se sozinho. A distância do outro é uma linha que nos divide tanto quanto nos cola. Eis seu desafio: sair de casa e levar nada, levar-se como quem leva
para o piquenique um prato vazio.
7
E aí vai ele escrever
mais uma página da sua história, mas ele não sabe o que escrever. Tropeça nos
pontos finais, nos novos parágrafos e, principalmente nas muitas interrogações.
Enquanto não sabe e nem pode encontrar respostas, escreve sobre o que nem sabe que
procura, mas já está a buscar.