terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Anacrônico

Hoje mentiu. Seu costume de infanto ganhou novos contornos ao perceber-se ludibriando pessoas amadas com uma história intrigante apenas para esquivar-se de uma situação de rotina. Não queria mover-se, esforçar-se. Para quê? Acostumara-se a cuidar de contextos, possibilidades e, principalmente de relações, mas de que vale cuidar do futuro, se hoje, presente, mal consegue distinguir entre reais ou fictícias as vivências de seu passado tão recente? Talvez a única palavra que consiga dizer hoje sobre tal experiência seja “avassaladora”, o que não confere, necessariamente, um caráter de realidade a tal experiência.

Um sonho, um surto. É assustador como algo vivido de forma tão intensa possa ser sustentado na memória de um homem sob a dúvida de sua veracidade. Assim sente-se quanto àqueles poucos meses, intensos, vividos de maneira plena embora em meio a intempéries. Guiava-se por uma lucidez estonteante, e perguntava-se se era a clareza que o cegava ou se na cegueira encontrara uma luz tão clara a ponto de fazê-lo enxergar novamente. Talvez ambas as respostas estejam corretas.

Um sonho. Paira em momentos de completa distração – e, portanto, completa atenção ao que realmente importa – diante de imagens que, já no momento do acontecimento, entendia que ficariam tatuadas em sua memória. Aquela figura deitada, dormindo em sua cama, em seu peito, O encontrar das mãos que se procuravam novamente após terem se perdido em meio ao sono, Um olhar cúmplice de quem sabe do outro e que sabe-se compreendido, e então repousado em segurança. O desconcerto de uma dança antiga, brincada. Uma fotografia espontânea em que entre a troca de sorrisos encontrava-se um pedaço de frango. As chegadas, as despedidas, a primeira transa e o choro da partida.

Um surto. Sente-se por vezes dominado pelos pensamentos, pela lógica, pelo raciocínio. Encontra-se diante de sequências de fatos que vistos assim, de longe, analisados fria e calculadamente, fazem-no perceber o quão inconsciente passara por tudo. As festas, as falas sobre e os relacionamentos com outras pessoas. As conversas atravessadas com amigos. O controle da quantidade de afeto. O cuidado para se envolver pouco com questões pessoais. O ser abrupto em direção ao que é sexual. A ausência de ciúmes. O não ter ou fazer planos. O não querer ter um relacionamento sério. O não saber. O querer gostar. O fim no dia do começo.

Sente-se deslocado no tempo. Vive em uma bolha, aprisionado ao destino que, de algum modo, o passado lhe imprime. Tudo o que faz é verificar sua história e tentar conferir o que foi real, o que não se tratou de sonho ou surto. Pensa em amigos, familiares, situações de trabalho. Analisa suas escolhas e tenta compreender a originalidade de tais existências. Escava em busca dos alicerces que construíra como que para certificar-se de que é seguro continuar ou recomeçar a construção sobre o solo. Segue sem saber se ao escavar está perdendo um tempo precioso para a construção, ou se ao construir não estaria negando a dúvida quanto à existência da base. É aqui que o tempo, ele e a realidade se encontram.