Hoje mentiu. Seu
costume de infanto ganhou novos contornos ao perceber-se ludibriando pessoas
amadas com uma história intrigante apenas para esquivar-se de uma situação de
rotina. Não queria mover-se, esforçar-se. Para quê? Acostumara-se a cuidar de
contextos, possibilidades e, principalmente de relações,
mas de que vale cuidar do futuro, se hoje, presente, mal consegue distinguir
entre reais ou fictícias as vivências de seu passado tão recente? Talvez a
única palavra que consiga dizer hoje sobre tal experiência seja “avassaladora”,
o que não confere, necessariamente, um caráter de realidade a tal experiência.
Um sonho, um surto. É
assustador como algo vivido de forma tão intensa possa ser sustentado na
memória de um homem sob a dúvida de sua veracidade. Assim sente-se quanto àqueles
poucos meses, intensos, vividos de maneira plena embora em meio a intempéries. Guiava-se
por uma lucidez estonteante, e perguntava-se se era a clareza que o cegava ou
se na cegueira encontrara uma luz tão clara a ponto de fazê-lo enxergar novamente.
Talvez ambas as respostas estejam corretas.
Um sonho. Paira em
momentos de completa distração – e, portanto, completa atenção ao que realmente
importa – diante de imagens que, já no momento do acontecimento, entendia que
ficariam tatuadas em sua memória. Aquela figura deitada, dormindo em sua cama,
em seu peito, O encontrar das mãos que se procuravam novamente após terem se
perdido em meio ao sono, Um olhar cúmplice de quem sabe do outro e que sabe-se
compreendido, e então repousado em segurança. O desconcerto de uma dança antiga,
brincada. Uma fotografia espontânea em que entre a troca de sorrisos
encontrava-se um pedaço de frango. As chegadas, as despedidas, a primeira
transa e o choro da partida.
Um surto. Sente-se por
vezes dominado pelos pensamentos, pela lógica, pelo raciocínio. Encontra-se
diante de sequências de fatos que vistos assim, de longe, analisados fria e
calculadamente, fazem-no perceber o quão inconsciente passara por tudo. As
festas, as falas sobre e os relacionamentos com outras pessoas. As conversas
atravessadas com amigos. O controle da quantidade de afeto. O cuidado para se
envolver pouco com questões pessoais. O ser abrupto em direção ao que é sexual.
A ausência de ciúmes. O não ter ou fazer planos. O não querer ter um
relacionamento sério. O não saber. O querer gostar. O fim no dia do começo.
Sente-se deslocado no
tempo. Vive em uma bolha, aprisionado ao destino que, de algum modo, o passado
lhe imprime. Tudo o que faz é verificar sua história e tentar conferir o que
foi real, o que não se tratou de sonho ou surto. Pensa em amigos, familiares,
situações de trabalho. Analisa suas escolhas e tenta compreender a
originalidade de tais existências. Escava em busca dos alicerces que construíra
como que para certificar-se de que é seguro continuar ou recomeçar a construção
sobre o solo. Segue sem saber se ao escavar está perdendo um tempo precioso
para a construção, ou se ao construir não estaria negando a dúvida quanto à
existência da base. É aqui que o tempo, ele e a realidade se encontram.