Fazia
um tempo que não pensava em você, pelo menos não desta maneira. Estava eu
cercado de uma felicidade nostálgica e presentificada na realização de um
sonho. Foi uma batalha, e eu olhava para aquelas pessoas queridas ao meu lado e
na plateia, para os mestres com os quais tanto aprendi, para meus pais.
Eu
cresci neste tempo, me tornei mais culto, apurei o gosto musical, afinei com as
palavras e as leituras; Conheci da vida um pedaço, da boemia à ciência. Eu
aprendi a me aproximar da diferença, e não apenas aceitá-la, entendi que ter
alguém que escuta não é uma carência apenas daqueles que me procurarão, é um
tanto quanto minha. Eu aprendi a dar valor à minha origem, e a respeitar o
destino das coisas, fossem ou não condizentes com meus desejos. Eu chorei um bocado, e outro bocado sorri.
Mas
é que, ali, ao olhar para isso tudo, eu pensei em você. Eu pensei no trajeto
todo, nas dificuldades desde antes de entrar na universidade, do tempo em que
era difícil fazer amizades e de quão pequenas eram as perspectivas de
realização. Eu pensei nos tempos de faculdade em que construí as tão desejadas
amizades e me realizei de diversas formas na graduação e na vida. E eu pensei
em você, que viu tão pouco disso tudo acontecer, mas que dividiu um pedaço
pequeno, do qual eu vinha me esquecendo.
Eu
aprendi a levar a vida à sério brincando, entendi que pouco entendo e que isso
não é um desvalor. Eu que decidi ver o rosto da miséria humana, sou o mesmo que
queria te ver ali. Lentamente me vinha a ideia de que fosse com
teu sorriso ou com as lágrimas raras, com a pequenez que eu dificilmente
encontraria em meio aos demais, que teria o abraço de baixo para cima e os parabéns
mais simples e desconcertantes com o brilho no olhar. Você não estava ali.
Não,
mas eu não me iludi. Não estou ou fui menos feliz. Estou e estive em um
dos momentos mais emocionantes de minha vida. Mas é que eu, que pensava ter lhe
esquecido, que pensava não sentir mais sua falta, lembrei, senti.
Meu
peito aperta, sabe? Eu fantasio com você me dizendo “fica calmo”, naquele
momento de ansiedade da entrada. Com o abraço no final, “eu não falei?”. Com o
sorriso naquele momento – qualquer – em que me viraria para trás e te pegaria
olhando para mim e sorriríamos, como uma afirmação de algo que não poderíamos
alcançar com palavras. E satisfeito com o olhar, voltaria minha atenção
novamente para as demais coisas, certo de que depois haveria mais e mais.
Sonhei
que neste dia eu estaria radiante ao seu lado, que iríamos juntos dançar,
brindar, beber, cantar. E hoje farei tudo isso. Eu estarei radiante, vou cantar
e dançar e vou beber, mas não sem antes brindar. Você não vai comigo, mas
saiba, hoje eu vou te levar.