Ao chegar em casa, a primeira coisa que disse ao seu colega de quarto foi que gostaria muito que na vida houvesse aquela jogada infortuna dos jogos, em que se volta um ou dois espaços no tabuleiro.
É que ao chegar em casa, pôde desacelerar e perceber que crescer dói. Resolver questões burocráticas e gastar horas com isso; Enfrentar o drama dos bancos; descobrir que mais uma das pessoas com quem poderia se relacionar, é mais uma daquelas pessoas que não pode lhe corresponder, e assim se lembrar daquelas outras que querem lhe corresponder e que não podem porque, simplesmente, é assim; Enfrentar um dia de trabalho, com realizações, mas com o susto de poder colocar a cabeça em risco com a perda das chaves e a fuga de uma pessoa. Aproximar-se de casa, enfim, e perceber que há mais tantas tarefas para serem feitas hoje, amanhã e daqui duas, três semanas, "Eu queria voltar a ser criança." Que atire a primeira pedra quem nunca disse ou pensou essa frase. Ao olhar para trás, deitado e finalmente repousando o corpo, a mente punha-se a (des)serviço.
A vida está longe de ser um jogo, é deveras real para isso, mas guardemos as devidas proporções. Há algumas casas atrás, pedia por uma jogada que lhe desse o "avance uma casa", o que lhe livraria da "prisão". Nesse caso, não adianta muito a forma como você joga os dados. Importa que os jogue, aguarde e aceite a hora que a combinação lhe dê o aval de avançar. Agora, não mais preso no jogo, avança em direção à vitória, mas é que ao mínimo esbarrão de uma perda, quer voltar as casas pelas quais suplicou poder passar.
Antes de dormir fez uma prece. Não que fosse muito religioso, mas naquele momento, só havia uma possibilidade: ficar onde estava. Não podia voltar casas e ser criança novamente, e não podia avançar rumo à precipitação da falência ou da chegada. Ficar onde estava, do jeito que estava, era, e é, o grande desafio da vida. É proibido voltar e avançar. A vida não se dá fora dela. A vida, tabu-leiro.
Eduardo Carvalho