Aquele laço que nos unia, que nos colocava em contato todo santo dia, desfez o nó. Derrubada a fita, o despir de ida.
"Eu não sei colocar limites à minha alegria. Não coloco tampa na panela quando vou fazer pipoca. Saio por aí pipocando [risos]." E que gosto dá. E que gosto tem uma pipoca. Eu vejo e saboreio daqui, o teu filme, o teu estourar, sua transformação.
"Eu sofro muito, mas eu sei brincar." Onde já se viu frase mais sólida que a tua, meu estimado caminhante? Que é descobrir da dor uma possibilidade, o humor, o gosto de brincar. Não é que o gosto da vida aparece justamente diante do maior desgosto?
"Corre em meu sangue uma vitalidade, uma vitalidade que se chama alegria. Nunca fiz um exame, mas se fizesse... no meu sangue corre." E não era isso que eu sempre quis ouvir, sem planejar no começo que este era o objetivo, o que nem poderia... Aconteceu, na última batida. O indizível, o invisível, a consistência física se dando no reconhecimento da alma.
"Você me deixou sem palavras". Sim, as palavras, obra prima, arte fonte do meu trabalho, foi você que me deixou sem. E parece que ao ouvir-te, ouço a voz de algo de grande, de muito além. Um abraço, o gesto de se entregar.
"O meu coração agora está aberto para você. Não aberto fisicamente [risos], mas se fosse possível ver, você o veria aberto." Como assim meu caro? Aquilo que não se pode ver é justamente o que salta às vistas no lampejo da verdade.
"Até logo, eu não gosto de adeus".
Ele sai da sala. Eu sento, e choro. Um choro constante, queda d'água da alma. Sinto uma transmissão divina que atravessa o meu corpo, que atravessa minha vida, inteira, meu caminho todo, do começo até agora. Sinto o mistério escancarado. Sinto-me nu, desvelado, como se a vida estivesse me dizendo "É para isso que você veio."
Despido pela verdade, vou-me embora. Foi o último atendimento, que me deixara com a alma escancarada, e a consciência de que a ida é a certeza do mistério que somos, seremos e fomos outrora. Até logo.