Costumo admirar as pessoas que, com ousadia e coragem, ousam desafiar seus medos, investir na ponta clara ainda que o ao redor seja escuro. É de nobreza profunda a aventura do homem a desafiar-se a si próprio, a destemer-se à incerteza: esse mar de humanidade.
Admirado com a coragem que sou, devo admitir que me considero - ou considerava - medroso. É verdade que não sou o maior dos aventureiro e que embarque em poucos dos muitos desafios que me são propostos. Necessito de um espaço de tempo entre uma aguilhoada e outra até que a vida me prove o contrário e coloque algumas juntas para eu provar - há bem dizer, creio que isto já aconteceu. Mas o que quero afirmar é que conheço tantas outras pessoas que não só esperam da vida as provocações, como também as procuram. Buscam se desafiar e encarar os próprios limites. Acho particularmente esta característica excepcional. Mas creio eu que estas coisas tomaram um caminho no mínimo estranho em sua concepção.
Eu fico a me perguntar: quando é que medo passou a se confundir com a cautela? E a coragem com o destempero?
Disse há pouco que me considerava medroso, pois creio que já me coloquei - e fui colocado - à prova várias vezes. Fiz programas inimagináveis , topei encontros inusitados, desafiei meus pensamentos estatais, meus instintos, minha razão engendrada, minha capacidade física e mental. Me deixei entregar a algumas situações incertas, me calei diante de preconceitos e fui ver o que era... mas em praticamente tudo isso, no que me concerne a memória, não pude eliminar uma característica minha: a cautela, o cuidado. E continuam a me chamar de medroso, como se a coragem fosse uma ausência total de zelo. Não é.
Eu poderia seguir a pensar no que haveria de errado comigo quando uma ou tantas pessoas viessem a me dizer que sou medroso, bobo, dentre outras tantas ramificações disso, mas felizmente reconheço que é preciso enfrentar os desafios sim, é fundamental eu diria, e não nego minha lentidão ou pacificidade. Mas que estes que julgam o cuidado como medo, mal sabem quanta coragem embutida de cautela é necessária para recuar e dizer não em tempos de "pode tudo".
Agora estou pronto para dizer que tenho medo, pois tenho mesmo, ora pois! Eu tenho medo de quem não tem medo.
Agora estou pronto para dizer que tenho medo, pois tenho mesmo, ora pois! Eu tenho medo de quem não tem medo.