segunda-feira, 5 de maio de 2014

Reconhecer

Não há pausa meu caro. Todas as histórias estão presentes no presente de teu mais singelo gesto, e este é não só teu grande trunfo, mas também o teu impasse. Nada que lhe é colocado podes responder a partir do mais remoto e ingênuo sim, a não ser que este suspiro o enlace em um só sopapo todo o teu enredo, de cabo a rabo.

É o senhor mesmo, o tal que ousa deter em ti o controle da situação. Entregue logo a tua armadura que neste encontro ela não tem valor. Sim, apenas a armadura, pois é sabido por estas bandas de cá que nunca lutaste com espada. Se armastes de defesas meu caro, e estas, tão corriqueiras em tempos de medo não lhe protegem deste tipo de esbarro.

Sim, você não precisa desta proteção que criaste para aquelas coisas do passado, para aqueles ataques a mão armada, e mesmo para aqueles truques que não se pretendiam ofensivos, mas que de alguma maneira se tornaram. Daí de dentro faz-se aparentemente confortável, mas senhor impenetrável, daí faz-se difícil olhar aqui fora, e para o agora o que lhe é oferecido é flor. Se puderes ver, verá que não há truque algum, não há disfarce. É presente que se faz presente em tuas mãos, foi-lhe dado pelo acaso. Mas atente logo, pois não recebe quem quer, recebe quem se permite olhar e reconhecer-se.

Diante de tal flor, a armadura perdeu o brilho, a função, o valor. A queda do pedaço de metal, que convenhamos, sequer servia ao tamanho de seu corpo, ao tamanho de sua alma. Aos poucos e cada vez mais desarmado, perguntava-se assustado: Quem hoje ainda anda armado de flor em cabo petalado?

Fato é que o metal caído o deixara nu, e então completamente desvelado. Com os olhos não mais tapados, pôs-se surpreso e estupefato. Balançava a cabeça como que dizendo não acreditar e, portanto, não poderia dali em diante deixar de acreditar.

E não deixou de ser difícil. Pense quão vertiginoso é para um velho soldado, que acostumado à guerra fica diante das flores e repentinamente é por dentro desarmado.

E ali estavam aqueles dois corpos, aquelas duas almas, na simplicidade da natura do mundo. A perseverança daquele que mesmo desanimado lutava com a flor apontada, e o temor do outro que cansado de batalha, defendia-se de armadura posta em posição de guarda. Armas ao chão! Entregaram-se em gesto de nobreza, despidos não apenas de si mesmos. A nudez anunciava que a beleza do momento não era a sua formatação, mas a humildade diante da existência do outro girando no eixo da surpreendente intimidade. Adesão.

E enquanto lá fora tudo vem dizer o quanto pode ser bom ou ruim, afirmam com o corpo e o olhar despidos a força que tem o encontro de duas liberdades.