quarta-feira, 25 de junho de 2014

A moeda universal

Não há como fugir deste desfiladeiro que a vida é, de modo que em pouco mais de uma semana, a vida foi capaz de apresentar-se a mim em duas faces de sua mais nobre moeda. 

A morte é, geralmente, aquele lado da moeda que se não cai, viram-na para baixo, para não ser vista de frente, ao menos em nossa sociedade ocidental. O amor é a outra face, aquela que todos querem ver virada para cima. Eu diria que é ele quem dita o valor da moeda da vida. 

Obviamente a vida é deveras complexa para caber em uma metáfora binária como a moeda.  Mas nestes dois polos, extremos, encontram-se a válvula mestra do impulso pela vida e o escapamento que finda o movimento, embora haja pano para manga se formos falar sobre religiosidade.

A morte emergiu com uma proximidade relativa, mas foi o suficiente para mostrar o modo como ela tem o dom de mobilizar emoções particularmente especiais em cada membro da comunidade que envolve a pessoa falecida, da mais próxima à mais distante em vínculo familiar ou afetivo. A vizinha que se mobiliza para fazer comida e lanches, a sobrinha que deságua a chorar, a filha durona que se desmancha ao dizer "eu te amo" e o filho mais emotivo que sustenta a situação com mais força. A amiga não tão próxima que se coloca no lugar e chora ao pensar "e se fosse eu?", a mocinha, paixão do filho do falecido, que teme abraçá-lo ao temer mais confusão para o jovem. Eu, que sempre que pude escondi o lado oposto da moeda, observava atento a reação das pessoas. Não por um voyeurismo marginal, mas por uma curiosidade diante deste lado indelével e misterioso da vida, e também por respeito, acreditava que o silêncio e minha presença tinham mais o que gerar do que qualquer palavra que saísse por mero formalismo. Após o enterro é a minha maior agonia. As pessoas vão todas para casa, e é aí que a moeda fica em poucas mãos, escancarada.

Por incrível que pareça, ao menos para mim, dias depois em uma visita à família pude perceber que o cansaço e a tristeza estavam presentes ainda, mas de alguma forma havia uma fonte de mobilização que fazia o pequeno núcleo familiar, de viúva e dois filhos se reorganizarem. O filho estava para a sua aula de lutas marciais. A filha jogava videogame com o namorado e falava sobre seu trabalho, sobre uma cirurgia que acabara de realizar no joelho, e sobre uma comemoração de seu aniversário, sim, uma festa. A senhora viúva saía de casa com galinhas na mão, para matá-las afim de cozinhá-las, seguida por uma cadela agitada, aos risos, e falava sobre reorganizar o quintal, inclusive sobre plantar uma pequena horta. Não me pareciam gestos de quem estava disfarçando a dor, pois a dor hora ou outra emergia em uma fala, em um silêncio, mas era o motor da vida, a reorganização, capacidade que não cansa de me surpreender na humanidade.

Bem, nesta experiência já estão presentes os dois lados da moeda, percebo agora: o amor em suas mais diversas formas motivava aqueles três membros do núcleo familiar a se reorganizarem, a se motivarem com diferentes nortes. O amor pelo esporte, o amor pela carreira profissional, o amor pelo lar, o amor entre eles.

Mas o amor se escancarou para mim um pouco mais adiante. A prova de que viver juntos e aquele papo que as pessoas casadas dizem e que os solteiros usam para justificar o não casamento tem um fundamento. Sim, mas é uma sensação mágica a de dividir, a de ser e estar com alguém, convivendo nas minúcias dos defeitos à flor da paixão que é dormir e acordar juntos. O amor é a peça motriz que condiciona à experiência da convivência o sentido. É a potência substantiva que permite que o adjetivo possa não ser sempre positivo. É o lado da moeda que contém o valor marcado, embora o outro lado tenha função primordial de lembrar o real do valor também, mas de outra forma.

Não é simples se encontrar com o diferente. Não é simples deixar de pensar em termos financistas em uma sociedade financista. Seria fácil tratar aquilo que parecia primordial como descartável no mais simples impasse. Mas a beleza do amor é o que faz com que os impasses sirvam de aprendizado e não como determinantes do fracasso. E o valor está aí, no fato de estar por que faz sentido estar, e não por uma característica ou outra.

O amor e a morte fazem as coisas não carecerem daquilo que nós pedimos de forma tão ignorante: explicação. Eles se localizam no âmbito do valor, do sentido.

Talvez por isso o amor e a morte sejam as duas coisas que mais traduzam a vida, sejamos só mais uma cara, ou portemos na cabeça uma coroa.