É que a gente, bicho gente, sente falta dessa coisa que é olhar. Essa coisa que não é simplesmente deixar os olhos deitados sobre o outro, mas um carregar-se de dentro intencionado. Um fervor que embora silencioso e estático é perceptível.
A falta que dá na gente é sentir que não cabe naquele par de olhos, aquele que se faz de olhar porém rega-se de preconceitos, não daqueles preconceitos óbvios, mas nas presunções de certezas prévias de quem conhece bem. As pessoas não são seres estáticos. E não há beleza apenas ali onde seus olhos apenas pousaram. A beleza está na presença que acompanha também. E o cansaço que isso dá, e as dificuldades que isso gera apontam pra realidade, certeira aquela da qual a imaginação brinca de escapar.
Estranho como depositamos nosso olhar mais compreensível, doce e empolgado sobre aquilo que pouco conhecemos e como deixamos de enxergar aquilo que se faz presente de novo e sempre à nossa frente, ao nosso lado. Como podemos colocar o nosso juízo negativo e o positivo em olhares similares, tomando como critério de valor a distância e a proximidade?
E essa ansiedade que não passa, pois quando passo, os teus olhos só por mim passam, não me sentem, são olhos passageiros sob o meu riso, ou o riso que por vezes causo. Não é capaz de perceber que aqui dentro tem um bocado de dor e uma porção de vontade. Porque olhar que se diz profundo, pouco vê às vezes. Quando vê muito de perto, não é possível enxergar direito, não vê a complexidade, tudo é borrão preto.
E este amor que brota flor, se só podes ver o espinho, o que poderei ver eu? Posso ver flor, mas me diz qual é a graça de se ver e virar-se sozinho?