segunda-feira, 14 de julho de 2014

Memorial

A memória faz palpitar ao súbito reaparecimento, e já mesmo na possibilidade. Não dá lugar ao controlar. É a mesma que faz esquecer de uma série de detalhes que certamente foram determinantes para que os passos passassem a se esbarrar apenas ao acaso. Nunca por vontade própria.

Mas vontade é palavra que sobra. Vontade nunca é fim. E sem findar esta história, a cada aparecimento desperta-se um movimento instintivo que é como todo movimento da natureza. Uma cadeia de sentidos, de lembranças, de esperanças. Este encontro desperta o movimento mais pessoal, e o que é da pessoa é o que dela transborda.

E nunca parece tarde demais, embora o tempo fique exposto de forma brutal nestas retomadas estonteantes. E não parece o suficiente para sair da caixa e dar nome e significado. É uma espécie de pepita que se guarda sob a terra e que dali não tem seu valor desvelado, mas que o simples fato de existir em algum lugar faz saber-se importante.

E segue sem ser possível dizer o que fez com que não fosse. E dizer que não foi, neste caso, não conflui com dizer que não é. Porque está aí, prestes a acontecer. Está sempre prestes. Talvez se tomado na mão, se colocado em pauta. Mas colocar uma pepita em jogo não é tarefa simples, e este prestes persiste e abocanha todo o presente do acaso com um embrulhar de estômago a ressoar "e agora?".

Pode ter sido sufocante. As coisas e as pessoas, tais quais os sentimentos, quando grandes, também incomodam. Tem o poder de abrir o mar, e de fechar as portas de uma civilização. E não está nas mãos pequenas definir o ponto que fez com que esta fronteira, embora transponível, permanecesse murada.

Durante a noite, no sono, o sonho lembra. Os sonhos não tem muros e eles fazem quebrar as pontes da realidade, embora seus laços sejam dados a partir dali. Eles nos tornam claros, embora surjam no mais profundo escuro. Ali, essa história acontece.

E sonho, sonho é vontade. Vontade é o que sobra, vontade é pessoa. E pessoa é o que transborda, nunca fim.



P.s.: Memorial: Designação da narração de acontecimentos ou pessoas que são inesquecíveis.