Há uma naturalidade no decorrer dos fatos que é como se a vista deixasse na periferia dos olhos aquelas coisas mais óbvias da realidade. É uma espécie de método adaptativo, que faz com que aos poucos adaptemo-nos às presenças recorrentes, fazendo o foco se alastrar pelo novo, pelo possível e desaguando no inexistente.
Há para tanto uma palavra que carrega consigo uma simplicidade, mas que, de todo modo, é por vezes uma ação. Reconhecer não é tão óbvio quanto as próprias obviedades da vida. O olhar que naturalmente se desvia para se atentar ao novo, cai no vazio de que a novidade, muitas vezes é exatamente o velho se atualizando. Mas a gente não percebe. O olhar foi sendo educado a esperar pelo novo como uma caixa enlaçada com um presente, e muitas vezes, ela está em uma fotografia empoeirada.
Nunca vou me esquecer, se assim meu corpo físico permitir, o significado da expressão: "tornar óbvio o que é evidente". Óbvio é aquilo que está (ob) abaixo da (visio) visão. Evidente é aquilo que está (Ev) na linha da (visio) visão. Penso no valor que é trazer à tona aquilo que é mais verdadeiro, mais naturalizado, o que é, portanto, a base, o que sustenta. Óbvio tomou sentido de algo que pode ser deixado de lado, pois é uma camada abaixo do que importa. Mas o vazio que assola é justamente o de não tornar evidente a nobreza do que é a camada mais simples e consistente da vida.
A matriz da solidão não é apenas a marcação da impossibilidade do novo, mas também a morte simbólica do duradouro velho no presente.