quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Irrealizabilidade

O ônibus cheio da cidade centro-sul rumo norte. As passagens estreitas entre olfatos e audições indesejáveis, de um sossego abalável de papo de gente nem tão grande assim. Os teus olhos, pequenas amêndoas em rosto outono de palidez. Os cabelos anjeados de longo e enrolado loiro, dos quais não deixava descuidar ao vento. Manteve durante todo o trajeto a face intrêmula. A curiosidade do olhar penetrante que avançava sobre casas e carros e ruas e pessoas e a mim. O olhar desconcertado que ao perceber a discreta retribuição, finge olhar-se para outro canto, mas canto esse, que não disfarça, pois no mover-se, continua a manter os cerrados olhos, ainda que abaixo da linha da visão, sobre mim. 

Na cidade não há intimidade. Um aparato mínimo que faz caber tantas histórias em comboio que dirige as vidas de rumos distintos a lugares inimagináveis mas que em um ponto do trajeto as enlata juntas, escancara as semelhanças-diferenças, ao ver-se, ouvir-se, cheirar-se. Mas ainda nessa aparente indomável cadeia em que o corpo parece aprisionado ao espaço mínimo, é possível escolher a direção dos olhos. É possível perceber o sumir de todo zumbido e acontecimento em prol de uma direção que chama sem palavra. Os olhos também escolhem para onde olhar.

Mas a parada é o fim. É o lugar do reencontro com a realidade sórdida, do desconsolo e solidão primárias. Cabe à contínua roda que faz girar a cidade, o lugar para onde vai ser levada aquela face, aquela profundeza delicada e firme em expressão. O olhar é a ponte entre o corpo e alma e a virtude que se capta não está na realeza do saber. Intui-se a razão de si e do mundo em momentos de putrefação da esperança e inexorável realidade, então. E a vida flui. 

Na cidade, ela quase que carrega. E a serventia vem de que lhe levo a cabo de um encontro à minha história de raiz à horizonte. Nada é tocado em fronte sem ser pueril. O mais inóquo cruzar-se em cidade, em liberdade-lagoa, não deixa escapar a qualidade limítrofe da vida do certo ao instantâneo. E segue seu caminho de outono pálido, de cacheada vida, loira e outonos olhos, para onde vão olhar. A realidade é mera irrealizabilidade bela, que nos esquecemos pra viver e que nos lembramos vivendo.