sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Decep-se-acionar

Não sabia mais se o que lhe fazia falta era a precisão em fazer perguntas ou se era a busca desenfreada por respostas que o inviabilizavam.

O caos, porém, trouxe à tona uma realidade, ou melhor, a realidade. Estava despedaçado diante de um mundo no qual não se enxergava, ainda que já sendo parte dele.

Decepção. Esta foi a palavra que não havia encontrado até então e que se encaixou com seus sentimentos. Estava decepcionado. As perguntas estava fazendo, elas tinham coerência, não pareciam desfocadas. A busca por respostas era o requisito básico para perguntar, e era o que o fazia se mover, o que o matinha se movendo.

Mas o que acontecia então? Não estava feliz com as respostas. Olhava para diversas circunstâncias que lhe diziam respeito ou não e se sentia tomado por uma tristeza profunda, por uma amargura. Estava decepcionado com o mundo e não sabia. Talvez isto é o que chamam de brigar com a vida. É uma ambivalência tremenda você ser vida e brigar com ela. Você depender profundamente da matéria do mundo e sentir um encaçapante desgosto por ele.

E não há volta, foi o que ouviu com o olhar atento. Já havia cortado o fio frágil que o unia à realidade frívola das conexões materiais e mecanicistas. Mas o fato é que o mundo está assim, e oferece entradas múltiplas nestes termos, e ainda que o negue, é preciso entrar. Mas como? Se não há volta, como entrar em uma configuração assim?

Ainda não sabe bem como responder. Mas acreditar que é possível se inserir em um contexto que rema quase por completo contra o seu fluxo pessoal é um trabalho exaustivo. Reconhecer que está decepcionado talvez seja o primeiro passo. É real. O mundo está decepcionante mesmo. O que há de errado em se sentir profundamente triste com isso? Nada. O que vem a seguir, porém, é a presença. Não dá para saber qual vai ser a reação do mundo, e da parte pequeníssima dele da qual fará parte. É possível porém permitir-se entrar sem baixar a guarda, e confiar na possibilidade de criação e de reconfiguração que pode sim brotar - e apenas através - da presença, que um dia perguntou e mesmo decepcionado com a resposta, resolveu se mexer.