Certa vez ouvi dizer que na vida caminhamos como se estivéssemos a subir em um movimento de espiral. Passamos por um ponto sempre acima do anterior, nunca igual, mas guiados sempre por um mesmo eixo. Por outro lado, nos encontramos diante de momentos em que parecemos simplesmente repetir as mesmas coisas, que há um, dois ou vários passos atrás já fizemos. Em geral, nos perguntamos: "Mas de novo? Eu pensei já ter aprendido". É uma surpresa, às vezes desagradável e que nos mostra o quão pequenos somos e quão podemos ser presunçosos quanto às nossas próprias possibilidades.
Nesta metáfora da espiral, dizem que pode até parecer que estamos errando de novo da mesma forma, mas que apesar das semelhanças, já estamos em outro passo, e que o modo de olhar para a situação já não é a mesma. Mas o fato é que estas repetições abrem um vazio entre o passado e o futuro, quase como uma predição de que não há solução para a questão e um olhar fatal de pensar estar resolvida uma coisa que de repente passa a parecer que nunca será.
Mas a questão é que toda vez que nos deparamos no presente em um ponto determinado desse espiral que a vida é, temos a tentadora sensação de que este é o ponto final. De um modo ou de outro prevemos que não há saída, em especial quando este ponto presente esbarra no passado. É algo que nos puxa de forma sorrateira, pois no menor ato da consciência de retomar a realidade, podemos olhar para frente e presumir que ainda há caminho. O ponto de partida é sempre o que nos encontramos e o passado ou é memória que dá brasa ao presente, ou é medida de comparação, que banha o presente de idealizações. O passado quando colocado em comparação ao presente nos parece quase sempre melhor ou então dramatizado como o pior possível. O fato é que lá no ponto que lhe cabe, quando era presente, havia uma infinidade de coisas acontecendo ao mesmo tempo e a hipótese do futuro existia? Qual era o sombreamento do passado naquela época? Isso a gente não sabe se não recorre ao passado como memória.
A espiral continua a se mover. Enquanto escrevo ela faz uma curva a mais, ou talvez o movimento seja menos brusco. A questão é que do futuro, só podemos ver a sombra que ele faz, da parte de cima da espiral sobre nossas cabeças nesse passo de agora. O passado, por outro lado, são todas aquelas voltas que avisto com vertigem ao olhar para baixo. A tentação de correr depressa e chegar ao topo é tão perigosa quanto a desesperada de correr de volta para baixo, no ponto onde era tão baixo que não havia motivos para sentir medo da altura.
E a gente não pode se esquecer de que é sempre começo. É só olhar pra frente. Se olhar pra frente não tem a sombra de cima nem o abismo em baixo. Resta o próximo passo, o primeiro então. O passado continua lá e a possibilidade do futuro também. Sem eles não há caminho. Mas o fato é que o presente é sempre a única possibilidade que temos, é o começo. E se do fim nada sabemos, do começo podemos afirmar: ele não deixou de existir.