É estranho, as aves costumavam vir até mim, pousar em meus dedos, bicar migalhas de quitutes mineiros e se avoar de volta para sabe-se lá onde. Eu não as queria prender, não tinha como vislumbre saber se elas ficariam ou não, eu apenas pousava diante de seus pousos. Não era difícil perceber toda aquela linha de tempo que durava pouco, devo dizer, mas que bastava. E eu saía a cantar, ainda que sempre com uma intrigante dúvida. Onde será que moram os pássaros?
Ouvi dizer muito sobre ninhos, mas todos que vi, mais me pareciam lugares de passagem, pois eles quase nunca estavam lá. Achava que os pássaros não moravam, que eles viviam por aí se mudando, encontrando a cada dia uma nova árvore. Um novo lugar para ficar. Sentia um pouco de inveja, devo dizer. A vida dos pássaros parecia bem mais divertida que a minha, ao menos neste meu devaneio. Eles estão o tempo todo conhecendo coisas novas. Seu alimento muda conforme a estação... eles parecem seguir o ritmo da natureza, com uma leveza e tranquilidade perceptíveis em suas expressões.
Mas como dizia, eles costumavam vir até mim. Não sei bem, mas talvez a tarefa das pessoas seja exatamente coincidir com o movimento da natureza. E isso se tornou difícil, ao menos para mim.
Os pássaros talvez percebam que o meu movimento já não é tão espontâneo, característica tão marcante do que é natural. Seja leve ou forte, bruta ou sutil, a natureza carrega sempre uma autenticidade. É um ciclo que não se perde na forma, mas todo o seu movimento aponta para o que ela é no fim.
Os pássaros provavelmente não gostam daquilo que parece quebrar esta cadeia. Vejo-os pousar ao meu lado, mas nunca mais em mim. É como se eu estivesse à parte da natureza, ainda que muito próximo dela, e me relacionando com ela. Na verdade, eu também sou natureza, mas caminhando não em direção a ela, não na direção de mim mesmo.
Sou um estranho a eles, pássaros, e a mim, Principalmente a mim. Os pássaros se mudam quando há uma interferência brusca na natureza onde eles costumam ir e ficar. Não deveria ser estranho, portanto o fato de que eu, natureza cheia de interferências não fosse mais um bom lugar para estes seres de fluidez serena. E de que valeria os pássaros pousarem em meus dedos e se alimentarem? Talvez o que mais lhes interesse não seja realmente as gostosas migalhas de pão, mas o nosso sorriso admirado com sua beleza. Talvez seja isso o que os pássaros queiram. Talvez seja disso que a natureza se alimente. E este é o ponto do qual venho me afastando. Eu devo não estar olhando com tanto gosto um pássaro que pousa em meus dedos. Devo ter lançado a eles tantos olhares frios, que aos poucos eles foram passando a encontrar dedos mais entusiasmados, dedos que apontam para um desenrolar bonito. Enquanto isso, meus dedos se fecham junto ao punho. A mão cerrada não consegue nada oferecer, nem tampouco receber visitas.
O fluxo da natureza, porém, continua mágico. Os pássaros não virem mais até mim indicam que algo de errado acontece ou com eles, ou comigo. Não há escapatória de uma natureza de onde todos participam, ainda que seja perfeitamente possível que uma parte dela caminhe em outra direção. A dor é a ponte mais clara entre estes dois caminhos. E o que me intriga nisso tudo é que eu ainda me pergunto: Onde será que moram os pássaros?