...E queria entender o que aquele silêncio gélido, tão distinto de suas sempre tão contundentes palavras, significavam. Estava triste, mas mais do que triste, surpreso, mas mais que surpreso, tinha medo. É, medo. Medo simples, infantil, medo de dormir sozinho. Questionador que é, se pôs a pensar o que motivara aquele silêncio a predominar em um momento em que tantas palavras poderiam e deviam ser ditas. Talvez esta já fosse uma resposta, mas não lhe bastava. O fato é que a noite chegou e mesmo diante de toda a audácia e suposta capacidade de controle próprio e resiliência, restou-lhe ao fim uma agulha afiada a lhe cutucar de medo. Haveria de chegar em casa, apagar todas as luzes e enfrentar todo o trajeto entre o escuro o sono e a manhã.
Foi o que lhe fez pensar que só dormiria sozinho porque escolhera assim, porque negara a companhia de quem se entregava de corpo e alma à sua companhia. "O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo de sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher)". Ah, e era como se Milan Kundera o escrevesse em A insustentável leveza do ser.
Tomou o rumo oposto à sua casa, ligou às 2h36 em lua, e foi-se dormir com a única pessoa com quem poderia sentir-se seguro e sem medo. E parecia contraditório, pois naquela relação sentia uma série de medos, de vertigens. Ora duvidava, ora acreditava de olhos fechados na força do que eram. Mas o fato é que ali não tinha medo de fechar os olhos, e quando o fazia, descansava. Ao fazer assim pôde entender o que o silêncio gélido de dois dias atrás, tão distinto de suas sempre tão contundentes palavras, significavam. Dizia não ao seu sono, e então aos seus sonhos.