Abrupto é o momento do irromper da novidade. É tal qual a pele debaixo da roupa que a gente não chega a ver se não quando depois de aberto o botão-zíper. A plasticidade da fantasia dá lugar à sórdida e intransferível realidade. As perguntas dão lugar às respostas. O pestanejar dá lugar ao preciso. A ansiedade à vivacidade. Restam os jeitos e os desjeitos, inadiáveis nem tampouco prorrogáveis.
Do nada a bomba voraz que ameaça de extinção se torna novelo de linha, gato enrolado de medo, roupa amassada, embrulho antigo de presente, bola de futebol, de gude ou de neve, pedra, balão, meia, olhos, desenho de nuvem, espelho. O projeto nunca dimensiona o real. O real é quando a gente pode finalmente ver o que é. A dimensão do imaginário é uma fagulha de bomba acesa sem contador. Explode a qualquer hora e, sendo assim, é como se não deixasse de causar estrago em momento algum, mesmo sem chegar ao ponto de detonar.
Eis a novidade, abrupta, que quebra a fragilidade não por eliminá-la, mas mostrando-a. É o Inaugurar da verdade que independe da beleza, dos trejeitos, das frivolidades, das vontades, dos clamores, das histórias, dos pesares, dos seres. Mas que em certa medida depende sim.
E a ansiedade é o esconderijo da alma que tem medo da realidade. É a gente se vestindo de qualquer coisa que não é ou que gostaria que fosse. Levanta bandeira de paz e amor; vai ser sacristão, bandido ou doutor; comprar casa em Mangaratiba; Fazer sexo ou viver de amor; Se jogar na loteria ou no desfiladeiro; tomar porres de alegria ou de rancor. A novidade está sempre na ponta do nariz da gente, e não adianta onde a gente esteja, ela ainda é um grande temor.