Quando vou dormir, não
sinto sono. Quando devo acordar, só quero dormir. São os lastros de uma vida de
potência em desvalor. Que queres de mim se sou apenas parte de sua estatística
então? Que beleza há em fazer, ou melhor, em ser assim? Pobre coitado que sob o
agito das marés luta para manter-se no mar e só se afoga.
Que culpa tens tu,
porém, não sei. Demasiada ciência, política, si mesmice. Não cabe o tu na tua
boca, quanto mais no fazer. Resta a mim esperar o que das coisas? Não há de
cair do céu a salvação que tanto proclamam por aí. Não há em mim também a força
de mudar essa minha natureza inválida para os tempos que chamam de hoje. Ah,
modernos são os aparelhos que usamos, os nossos meios de linguagem e nossos sonhos
até. Mas só há chances todas de obter um único tipo de sucesso, outros não.
Haveria, pois no meu
querer um crime que fosse abuso de coração, que fosse moléstia da alma, que
fosse dolo ou culpa, mas que não saíssem ilesos desse mundo aqueles que
ultrajassem a parte imensurável do ser. Esse meu querer, a minha tortura, a bel
prazer do sereno, ao relento de toda e qualquer margem dessas ruas de
descuidos. Não precisa tocar nesse ponto, porém. Há tanta coisa pra além a se
fazer. Deveria eu entender então.
Mas é muito poder
dormir a noite um sono tranquilo. Acordar sem essa angústia de ver a luz e o
dia inteiro pela frente em perspectiva de desgostos de novo. Não tem paz em
terra de quem semeia e não vê nada da terra brotar. Falta chuva ou foi mal o
arado? A natureza minha ou ela própria somos por um momento ou de longa data
incompatíveis? Eu queria brotar de mim uma planta bonita. Queria ter o respirar
leve, a escrita feliz, o rosto e peito abertos de novo. Tenho esse amargo ranço
na boca. Essa cicatriz aberta no peito de gente que nasceu pra ser boa naquilo
que não vale.
Ser feliz nas coisas
simples é então quase um paradigma. Tomar uma xícara de café, comer uma
quitanda, chegar à janela no entardecer, sentar em um bar semi-vazio para
conversar com um dos poucos. Felicidade na leveza de quem pouco tem em si para
poder ser grande.
O prato cheio, o gozo,
o porre, a casa, o carro, nem mesmo o amor. Nada disso substitui a dor de ser
tal qual se é fora do tempo-espaço para florescer.