segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Atemporal

Eu poderia ter me dedicado mais nas aulas de violão. Ter insistido no inglês, no italiano. Continuado a praticar vôlei, treinado futebol. Gostaria de ter insistido na ideia da bicicleta na cidade grande, de ter saído para lugares que fui convidado mas não me entusiasmei, de ter estudado algumas coisas, lido tantos livros, visto filmes que se acumularam em lista. Eu gostaria de dividir um quintal com você.

Ah, as velhas músicas, os sons que deixaram de ser só meus, os lugares que ganharam sua cor, as pessoas que passaram a ter o seu rosto, os meus sonhos que passaram a ter o seu cheiro.

A minha vulnerabilidade escancarada em sarcasmo e humor e a minha quietude no formato de saudade sem espera. O tempo e as lágrimas corroeram algumas das minhas vigas, me fizeram descartar certezas, colocar panos sobre velharias e descobrir algumas outras.

O passado foi dia-a-dia ressignificado na esperança de sentido novo para o futuro despedaçado naquele dia. Não no dia do fim, mas no dia do começo. Eu me quebrei todo ao te conhecer. Joguei todas as minhas escoras, colas e consertos pra traçar uma forma nova. Quebrar era caminho também. Era a previsão de um sonho, que conserva fantasmas a vaguear em  meu quarto escuro, em meus silêncios.

De todas as coisas que eu não fiz e gostaria de ter feito, em uma porção você está. Não é um desespero de quem perdeu o contorno, não mais, mas permanece essa saudade de quando você por aqui tracejava.  Sou impelido a pensar tantas vezes em você, não evito. Acompanho a tempo-ritmo das coisas, ora angústia ora paz.

Nós estamos inevitavelmente nos mesmos lugares, não sei se você percebeu, mas nunca no mesmo horário.