domingo, 12 de outubro de 2014

Prosa e Chuva

Lá vem uma nuvem escura, disse ela.

Joana era mulher de poucas palavras. Arguia com os olhos. Força de mulher que pouco se derramava em prantos. Rastros da vida que não a faziam mais levar alardes por migalhas como em seu galinheiro. Serena e doce, contudo. Pano fino na cabeça, posta de chinelas e saia em canela. Fé é coisa que não falta. Vivi sem pão mas não vivi sem fé, dizia ela. Ah, e que paixão pelo rádio e suas cantigas sertanejas de raiz potiguar.

Lá vem uma nuvem escura, disse ele.

Lúcio, seu filho, não tem a mesma destreza com os sentimentos. Rapaz de fogo nas ventas. Bradava em tiro de ponta e carabina por qualquer que fosse o triscar ou fagulhar de discordância. Homem difícil, apelidado de "Novo jagunço do Ipiranga". Trabalhador. Carrega leite pra toda banda, faz roçado como ninguém na região. Trata de gado com a fineza que não consegue tratar a gente. Casou-se e descasou-se três vezes. Da segunda veio Maria.

Lá vem uma nuvem escura, disse ela.

Maria é menina artista, dizia a vizinha de Joana. Moça introspecta, de fala pouca tal qual a avó, e de traços fortes no desenho em folha e pano. Dotada de voz serena, rodada de cintura e dança. Ah, moça bonita, sua fama entre os rapazotes da vila. Sonha ser flor, enquanto não pode, faz planteio de horta e recria em tela jardim. Potiguar que sonha São Paulo e Rio, que floreia Florença e pararia em Paris, não fosse a falta de cruzeiros. Moça triste com os custeios de ser celebridade sem um tostão.

A verdade é que pouco se falam. É que pouco se ouvem. Joana não entende Lúcio em suas estripulias, e Maria é para ela uma sonhadora sem chão. Lúcio vê Maria como obra sua, não a quer no mundo e Joana para ele só lhe chama a atenção. Maria se inspira na força da avó mas não conseguem falar a mesma língua e, para ela, Lúcio é um pai guerreiro, mas que lhe tira a liberdade, seu bem mais precioso, sem dó.

Lá vem uma nuvem escura, e correram todos no mesmo rumo em volúpia sem ré. A verdade é que sozinhos, cada qual tem a sua luta, mas dividem um mundo, e ao primeiro sinal de chuva, tem festa, tem música e prosa. Nesse dia ninguém é mais só.