Lá vem uma nuvem escura, disse ela.
Joana era mulher de poucas palavras. Arguia com os olhos. Força de mulher que pouco se derramava em prantos. Rastros da vida que não a faziam mais levar alardes por migalhas como em seu galinheiro. Serena e doce, contudo. Pano fino na cabeça, posta de chinelas e saia em canela. Fé é coisa que não falta. Vivi sem pão mas não vivi sem fé, dizia ela. Ah, e que paixão pelo rádio e suas cantigas sertanejas de raiz potiguar.
Lá vem uma nuvem escura, disse ele.
Lúcio, seu filho, não tem a mesma destreza com os sentimentos. Rapaz de fogo nas ventas. Bradava em tiro de ponta e carabina por qualquer que fosse o triscar ou fagulhar de discordância. Homem difícil, apelidado de "Novo jagunço do Ipiranga". Trabalhador. Carrega leite pra toda banda, faz roçado como ninguém na região. Trata de gado com a fineza que não consegue tratar a gente. Casou-se e descasou-se três vezes. Da segunda veio Maria.
Lá vem uma nuvem escura, disse ela.
Maria é menina artista, dizia a vizinha de Joana. Moça introspecta, de fala pouca tal qual a avó, e de traços fortes no desenho em folha e pano. Dotada de voz serena, rodada de cintura e dança. Ah, moça bonita, sua fama entre os rapazotes da vila. Sonha ser flor, enquanto não pode, faz planteio de horta e recria em tela jardim. Potiguar que sonha São Paulo e Rio, que floreia Florença e pararia em Paris, não fosse a falta de cruzeiros. Moça triste com os custeios de ser celebridade sem um tostão.
A verdade é que pouco se falam. É que pouco se ouvem. Joana não entende Lúcio em suas estripulias, e Maria é para ela uma sonhadora sem chão. Lúcio vê Maria como obra sua, não a quer no mundo e Joana para ele só lhe chama a atenção. Maria se inspira na força da avó mas não conseguem falar a mesma língua e, para ela, Lúcio é um pai guerreiro, mas que lhe tira a liberdade, seu bem mais precioso, sem dó.
Lá vem uma nuvem escura, e correram todos no mesmo rumo em volúpia sem ré. A verdade é que sozinhos, cada qual tem a sua luta, mas dividem um mundo, e ao primeiro sinal de chuva, tem festa, tem música e prosa. Nesse dia ninguém é mais só.