Mas foi chegar perto de Glória que pra ver que de santa a mulher não tinha nada. Foi abrir a boca, três palavrões. Caí na risada. E o que que eu fui fazer! Descobri na marra que Dona Glória é contadeira de estória, que já andou as Minas Gerais inteiras, de fazer faxina em tempos de Ouro Preto capital, até a ser capa do pomposo Estado de Minas. Falavam de Dona Glória como se ela fosse todos os dias à igreja. Ia na verdade era quando dava na telha. E aquela telha de cabelos negros pintados de quem não aceitava o grisalho, de vaidade mais humana impossível.
Mas eu não estava ali para julgar, queria conhecer a tal da Glória. E ela começou a me contar casos de seus tempos de faxina e rádio-novela, de suas estripulias amorosas, de seus devaneios e fugas que em nada deram e suas voltas, e quantas voltas arrependidas e de desculpas de joelho ao chão.
Aos poucos começava a entender o que o povo dizia. Dona Glória me fazia rir como há muito tempo não fazia, e de repente me fazia chorar de tanta beleza que tinha sua vida. Mas a beleza era escura pele negra. Me contara do racismo que sofrera, da vida de empregada em família branca, da fome, sua companheira fiel de anos a fio. E eu me questionava como podia a mulher andar a cidade inteira à pé com um sorriso maior que o rosto. Eu tinha perguntas que não cabiam. A vida dela era muito inteira, e inteira era por que não deixava de ter buracos. E aí eu entendi o que era a fé.
Glória só ia a igreja para fins de pedido e agradecimento. Ela me disse bem assim: "Deus é cada chão que eu já varri." Ela só ia à igreja para pedir força e para agradecer a graça concedida. Glória!
Tinha dias que ela brigava com Deus, dizia ela: "O tanto que eu já xinguei Ele, coitado". Eu nada podeira dizer. Meu lado cético concordava com seus xingamentos e minha religiosidade concordava com Deus em cada coisa da vida.
Dona Glória me disse que tinha de ir embora. Tinha que comprar créditos para o celular da neta. A mãe dela a proíbe de falar ao telefone com o namorado, e lá vai a avó Glória acobertar. "Heresia" poderia gritar o religioso de porta de igreja. Eu achei um tremendo ato de Deus. Disse ela:"A mãe dela namorou a vida inteira, vai proibir a menina. Só quem fez safadeza tem medo da safadeza do outro, é ou não é".
E eu morrendo de rir me despedi. A abracei e agradeci pela conversa encorajadora, E ela acenando me gritou: Que você tenha dias de fé meu querido, mas também dias de Glória!
Fui embora com lágrimas escorrendo dos olhos e caindo no sorriso aberto.