quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Saída 1

O soldado encontrou um de seus rivais vivo em um dos campos de batalha. Com presteza não corriqueira nos combates o levantou e tentou fazer com que ele lhe dissesse o que aconteceu. A fala, porém, estava dificultada. O rival tinha a respiração ofegante, seu corpo estava escoriado em diversas regiões e falar era um desafio à sua força. Ele parecia não acreditar que alguém oposto pudesse ajudá-lo, e seu medo e necessidade confrontavam-se a saber para qual direção faria a pouca força que lhe restava.

Ao fim o soldado o carregou. Ele então fechou os olhos e acreditou. A fragilidade que insistia em não aceitar era sua única companhia, e aceitá-la era o que podia fazer. Era este o único dado de realidade que lhe restara.

O soldado o levou para uma base onde foi cuidado como todos esperam e deveriam ser, mas nunca em meio a uma guerra. Seus olhos eram dois vidros refletidos na contradição do que via. Não esperava nada senão uma derradeira bala em sua testa, mas recebia auxílio. Tal qual um bebê, era refém do que fariam de si, e surpreso, nem sequer conseguia entender ainda a dimensão da sorte que tivera.

Passados alguns dias, ele era mantido preso mas parecia em paz. Havia uma lucidez que o mantinha confiante embora em alguns momentos desconfiasse desesperadamente de que toda a benfeitoria lhe seria cobrada a duras penas posteriormente. 

O soldado que o reteve ao quartel indicava bons presságios. Todos os dias o visitava e o fazia perguntas sinceras sobre sua vida. Aos poucos começou a contar-lhe então sobre os motivos que o levara a guerra, os caminhos que o levaram ao local que foi encontrado, e da saudade que sentia de tudo que foi deixado para trás em seu país. Casa é a palavra universal que une todos os soldados em uma missão, disse. Casa é o lugar onde encontramos a ilusão, talvez necessária, de que estamos protegidos de nossa fragilidade, ouviu como resposta.

Para seu espanto não havia um desconforto por parte dos demais soldados. A guerra, de um modo ou de outro, não fazia sentido para ambos os lados. O que se espera sempre, mas nunca de uma guerra, acontecia. Todos olhavam-se e viam pessoas, não viam-se como inimigos. A sua história lembrava a do outro, ainda que de lados opostos na fronteira.

Por fim foi enviado para casa às escondidas dos generais e mandatários da guerra. Assistiu pela TV o fim derradeiro dos combates, em que mais uma vez não houve vencedores. Uma trégua tal qual uma vírgula no fim da página. 

Como em todo fim, ele esperava o sossego para uma vida tranquila, mas passou a conviver com o desconforto de se lembrar sempre de que não era o fim, de que não havia acabado. Ficava feliz toda vez que pensava naqueles soldados que o ajudaram, que lhe devolveram à vida, mas pensava na guerra e lhe vinha o medo. Gostaria de nunca mais lutar. Todos os anos, na data em que fora salvo, lembrava-se de de enviar para alguma criança do outro lado da fronteira um presente. Era arriscado, mas era um modo de homenagear o risco que aquele soldado que nunca mais viu correu por ele.

Às vezes à noite quando se deitava na cama, e na tranquilidade de sua casa se lembrava: "Casa é o lugar onde encontramos a ilusão, talvez necessária, de que estamos protegidos de nossa fragilidade". Quando se lembrava, colocava a família no carro e saiam para viajar.