Costumo olhar para a lua, para o sol, para as serras e para o mar e me lembrar sempre de que as coisas mais valiosas que um ser humano pode ter já existiam, estavam e estão à disposição de todos, de um modo ou de outro. É loucura talvez que um habitante de terras centrais de continente como eu viva com um remo à mão, ou que um amante que não tem à disposição a amada ou o amado vislumbre um futuro de amor. E é sempre do amor que me lembro quando diante da surpresa com estes bens valiosos da humanidade. Ele está sempre disponível.
Posso dizer que experimentei todos eles em um dia de viagem. Vi o nascer do sol e passei em frente ao mar. Subi algumas serras cercadas de morros de mata preservada chegando bem perto das nuvens até que ao fim do dia pude ver o pôr do sol. Doze horas depois, ao chegar em casa, pude ver ainda a lua cheia iluminando com um clarão branco o céu e a rua da minha velha casa. Entendo a justiça de ser chamado de piegas e aqueles que assim me julgarem pelas palavras de até agora, tudo bem. Estas são as palavras - e talvez eu nem seja tão bom assim com elas - mais interessante é a experiência.
Apesar do risco de me tornar piegas, julgo ter nascido com uma espécie de sensibilidade no olhar. Um exemplo simples e talvez banal é o de que minha mãe insiste há anos para que use óculos escuros para me proteger do sol e eu, em meio a desculpas, acho que na verdade é um desperdício ficar diante das coisas e das pessoas com um aparato escurecedor do "entre". O entre é a parte mais interessante de mim e do mundo. O entre é o puro, é o mais real da vida. Claro que os óculos escuros tem sua função excepcional, mas se não é necessário, para quê eu colocaria algo que modificaria este contato entre o mundo e eu?
Eu gosto de olhar as coisas, de sentir as coisas. Ruídos me incomodam, mas só quando dispersam do que interessa em última instância. No mais, reclamações quanto a ruídos são picuinhas. Eu gosto de andar descalço, de entrar na água gelada, de experimentar, de descobrir em ato, de ser desafiado e de me desafiar. Mas tudo isso só faço entre. Nada me satisfaz se não diz respeito ao que interessa. E o que interessa não é o que eu gosto, é o que tem valor, que tem um caráter de importância que inclusive está para além tando dos meus quanto dos gostos pessoais de outrem.
E foi em uma destas que fui convidado a me engendrar em meio a uma rotina que não é minha, em um universo de pessoas e coisas que não faziam parte de quase nada meu, e foi aí que se escancarou o que chamo costumeiramente de uma espécie de sensibilidade no olhar. O barulho do mar, a sombra das árvores, o pôr do sol, o pai ensinando o filho a pescar, o cachorro se divertindo sozinho, o olhar do vendedor de pulseiras, o idoso com o bebê na bicicleta, a família reunida tentando jogar vôlei, as palavras de um sábio apaixonado por salame e cerveja, tudo em meio aos ruídos, muitos ruídos. Em meio a eles, pessoas pedindo que o mar não tivesse areia e que a chuva não molhasse. A atenção era tentada a evadir do que interessava para estas banalidades que, facilmente me tornariam outro destes. Mas eu preferia o silêncio, a saída para a trilha, o banho na água, o barulho do vento, e os olhos voltados para os acontecimentos e me vi presenteado pelo que chamei de as maiores belezas da humanidade
Bem, voltando a estas coisas, talvez serei julgado por não incluir a família dentre as coisas mais valiosas, mas basta caminhar um pouco para perceber que nem toda família é um bem tão precioso, seja por ausência ou excesso de intervenção. E é claro que aqui não falo sobre pequenos deslizes. De todo modo estou sujeito a outras preciosidades que alguém, por experiência própria e coletiva possa sugerir. Por agora me lembro destas. De todo modo, poderia eu ser moralista a ponto de me debruçar sobre a glória de apreciar tais coisas e sobre o quanto perdem aqueles que não tem este gosto. Porém, a questão é que não é exatamente um privilégio. Aqueles que eu provavelmente chamaria de distraídos, são justamente os que me chamam assim. Eu deveria olhar para o jornal, para as questões econômicas, políticas, e especialmente para aquelas que me gerariam lucro e bens. Eu arriscaria que quanto a estar distraídos, todos estamos em algum nível. E eu bem sei que corajosos são os que assim se admitem, e se permitem olhar para o que não viam sozinhos antes. Está é uma parte bonita disso tudo.
Mas devo voltar ao amor. Não que precise, mas porque ele é, a meu ver, a ponta de fio que liga tudo isto do que venho falando. Hoje, quando vi o nascer e o pôr do sol, a lua, as serras e o mar eu tive algumas sensações de infinito. Estas sensações me lançavam para algo que era impensado, que não era o que me diriam ou o que minha mente pensante diria a mim mesmo para julgar como amor, o que me vinha era o próprio amor. - Pois bem, aqueles que me julgaram piegas anteriormente, neste momento devem ter desistido de ir até o fim do texto, mas se persistem, gratidão. - O certo é que no momento do entre, me vinham algumas imagens extremamente pessoais, lampejos de memórias de momentos em que fui intensamente feliz, imagens de realizações, de situações concluídas e de gratas realizações inesperadas e que pareciam me abrir para um horizonte de futuro pleno. Por outro lado, e quase simultaneamente, senti também pontadas de dores dilacerantes, por traços de memória de futuros outrora tão desejados e que não vingaram. Eram sentimentos de nunca, de impossibilidade, de irrealizabilidade. Mas finalmente me diga se esta se não é esta a própria experiência do amor, a de ser lançado longe, ao infinito sendo imediatamente tomado por uma profunda consciência da própria pequenez?
Eu diria que é de modo tal que eu continuo a acreditar que louco é quem ainda não vive com um remo à mão em terras centrais de continente.