Dizia minha mãe que demorei mais do que o esperado para nascer. Depois que nasci, choveu durante vinte dias ininterruptos. Talvez por isso eu tenha tomado um gosto tão grande por dias assim. Ela dizia que eu era quieto, que dormia demais, que era tranquilo demais, que eu ia fácil com qualquer pessoa e que eu tinha um jeito muito sereno de lidar com tudo o que acontecia. Na hora de me dar leite, eu dormia, e ela dizia que quando eu dormia tinha de conferir meu pulso. Quando sentia dor, ela dizia que eu não chorava, que me encolhia e ficava a espera de que passasse, sem reclamar. A minha intensidade, julgo, está no pouco.
Eu encontrei abrigo nas coisas pequenas da vida, desde muito cedo. Eu gostava da terra, da grama, das brincadeiras silenciosas. Eu desde pequeno era curioso pelas pessoas. As idosas da rua gostavam de mim, e os colegas de trabalho dos meus pais até hoje olham para mim como a criança tranquila, sociável e educada que as cumprimentava uma a uma ao chegar. As crianças queriam estar perto de mim. Eu era engraçado e brincalhão, embora muitas vezes parecesse quieto e fechado.
Eu sofri muito por ser diferente, e ser diferente era ser 20 dias de chuva no janeiro que todos esperavam pelo sol. Ser diferente era me sentir tranquilo diante da dor, era não clamar por atenção, era dormir a ponto de gerar dúvidas sobre se estava vivo, era me relacionar bem com pessoas mais velhas, era ser extrovertido e introspectivo ao mesmo tempo. Na minha rua as velhinhas gostavam de conversar comigo, de jogar baralho e me contar histórias, as crianças gostavam de me ter como amigo pois era competitivo em todas as brincadeiras e jogos, e os adultos se cativavam pela minha educação e bondade. Mas eu sempre me senti diferente apesar de cercado de amor.
Eu me pergunto se vim cedo ou tarde demais. O mundo me é muito estranho, muito cheio, intenso demais. As pessoas acham estranho os meus silêncios, a minha tranquilidade e acham que sou preguiçoso, desligado, desmotivado, mas a verdade é que eu espero muito, tanto quanto elas. A diferença é que eu gosto de parar. Eu gosto de olhar para o tempo, de perceber as pequenas delicadezas da vida, e também as grandes brutalidades, tudo com muito cuidado, com atenção. Eu me canso com pouco porque do pouco eu tiro muito, e tendo isso como base, não sou eficaz na maior parte das atividades que demandam velocidade e destreza. Seria incompetente na maior parte das instituições atuais.
Eu tive a sorte de encontrar alguns poucos como eu, alguns surpreendentemente mais dias de chuva ainda. Com eles tenho breves momentos de respiro quase como se pousasse um pouco em outro universo, um respiro que garante a minha sobrevivência na realidade latejante dos dias demais.
A existência tem precedentes os quais não determino. Desde muito pequeno, lembranças das quais sozinho eu nem seria capaz de buscar na memória apontam não só o que fui, mas delineiam o que sou e pontilham o que caminho para vir a ser. O mistério está no que eu faço a partir deste que sempre eu fui. É dolorido pois a realidade não é um lego onde eu finalmente posso encontrar peças nas quais me encaixo perfeitamente formando um eixo de felicidade eterna. Em Janeiro pode vir a chover muito e idosos às vezes são amigos de crianças, e em um mundo que gira constante é a parada que me faz.
* "Às vezes é preciso dormir, dormir muito. Não para fugir, mas para descansar a alma dos sentimentos. Quem nasceu com a sensibilidade exacerbada sabe quão difícil é engolir a vida, porque tudo, absolutamente tudo devora a gente, inteira." Marla de Queiroz