Apesar de tudo e por tudo, Mônica ligou. Ela era tímida, mas tinha uma amorosidade entranhada em suas vísceras. Seus sentidos eram um tanto quanto macios na exterioridade mas não se acomodavam em seu peito. Costumeiramente ia ao médico com dores musculares, gripes, insônia. Começou práticas como yoga, pilates e natação, mas não conseguiu ficar por muito tempo. Algumas dores só passam quando tocamos de forma profunda a ferida, e muitas vezes ela só se extingue após se intensificar. E de nada adiantava se ela apenas remediasse os arredores do machucado.
Mônica só sabia como demonstrar seus sentimentos através de ações rotineiras que não deixavam sombra de dúvidas a ninguém de fora sobre o amor que sentia. Mas com ele tinha uma enorme dificuldade com seus afetos. A distância, o ciúme, as dúvidas, a admiração, o desejo, tudo muito intenso e por vezes misturados. Ela não sabia delimitar suas ânsias e anseios e então sofria como se seus órgãos internos fossem mastigados, mas ela mesma era quem se corroía em si. Ele suportava o não ouvir, o não entender, quase sempre.
Mas ela o perdera em algum espaço entre o sentimento e a palavra-gesto. Este espaço que sempre ficava vazio se tornara insuportável para ele que, apesar de compartilhar de quase todos os mesmos sentimentos, encontrava extrema facilidade em colocar cada mínimo afeto em seu devido lugar, chaveá-los, medi-los e transbordá-los quando entendia ser de sua vontade e necessidade. Tinha um senso crítico sobre si e sobre o mundo capazes de rotear o espaço com incrível clareza e amplitude. Mônica se sentia afagada, segura, confiante, mas gestualmente apresentava-se a ele pouco tocada. E foi assim que além de corroer-se, passou a corroê-lo.
O tempo, senhor mestre de todas as coisas, regado pelos acontecimentos desvelou que o vazio proporcionado por Mônica tomou espaço demais em seu amante, penetrou-o e passou a ocupar a parte que outrora era encoberta de amor. Ele decidiu partir.
A partida para ele não foi dolorosa, a partida. Ela queria acreditar que seria e ele queria que fosse, para que a importância da relação não parecesse ter se desfeito também. Mas o fato é que ele não sentia nada mais, ele sentia vazio, e foi em busca de um preenchimento deste espaço. Mônica ficou e com ela a intensidade triplicada - ou mais, muito mais - de seus sentimentos que a exauriam a ponto de fazê-la dormir. Dormir era seu único descanso.
Com as atividades do dia a dia ela aprendia a cada noite vencida que era possível viver sem ele, mas se lembrava a cada manhã que ele não estava lá e nem estaria ao longo do dia. Uma montanha-russa que a fez inevitavelmente começar a encostar na própria ferida. Deixou de ir aos médicos e procurou por amigos e abandonou atividades de introspecção e de relaxamento e deu lugar a atividades em equipe. Começou a colocar suas emoções em jogo, muitas vezes de forma inesperada, como quando cozinhava com Joana, sua amiga, e começou a chorar por ver na sujeira de gordura nos ladrilhos do chão uma espécie de coração - o que muito provavelmente nem era. Outro dia quando estava a jogar vôlei, tomou uma bolada no peito e sentiu a respiração dificultada. Recebeu tanta atenção dos demais jogadores que lá estavam que começou a chorar. Eles acreditavam que ela chorava de dor pela bolada, e foi o que afirmara inicialmente, mas a verdade é que estava sensível para com os gestos de carinho desde que ele se foi. Ao fim do jogo contou sua história para duas colegas na saída do ginásio e, ao relatar tudo, se dava conta de que começava a fazer tudo aquilo que não conseguia fazer quando ao lado dele, isto é, se expressar. Sentiu-se bem por essa conquista, e triste, pois aparentemente não no tempo certo.
Após um mês e oito dias - ela contava todos os dias de manhã - não escondia sua tristeza de mais ninguém. Seguia a rotina com uma precisão e frequência inabaláveis e acreditava que se ele a amasse de verdade já teria ligado. Quando pensava, isso a fazia cair. Mas neste dia, ao conversar com uma de suas amigas se deu conta de que ele sempre a ligou, de que ele fazia questão de dizer tudo o que sentia, de expressar todos os sentimentos possíveis e de deixar claro o amor que sentia por ela, e que era ela quem nunca o fez. Neste momento não se julgou, pois graças ao tempo e aos acontecimentos percebia seu amadurecimento neste sentido. Sentia-se feliz pois estreitara relações familiares, com as amigas e com as pessoas com quem praticava esportes. Percebia-se mais forte e estranhava que isto partia do fato de expressar seus sentimentos, e o mais claro deles: a saudade.
No dia seguinte decidiu ligar para ele mas só conseguiu fazê-lo depois de mais um dia. Percebeu aí que sua evolução era um processo, não estava completa. Sentiu medo.
- Oi!
- Oi.
(silêncio)
- Eu não sei bem o que te dizer, na verdade eu nunca soube e é por isso que estou te ligando... É... é que eu não sei se você ainda se importa, mas eu acredito que sim, você sempre falou isso, então eu queria dizer que também me importo muito... É... estou com medo agora e, eu nunca estive tão certa de um sentimento como o que estou sentindo. Não sei o que você está vivendo, como está, mas sinto saudade.
- Eu não estou bem Mônica, talvez você tenha acreditado nisso. Parece que regredi alguns anos neste mês e pouco. Eu estou contando os dias, mas não falo com ninguém sobre o que estou sentindo. As pessoas me veem e acham que está tudo bem, mas a verdade é que não está. Eu sinto vontade de te ligar mas não ligo. Eu quero dizer muitas coisas mas me sinto entalado, e meu peito parece que vai rasgando sabe? Eu não costumava ser assim.
(silêncio)
- É estranho, eu achava que você iria ficar bem, que estava tudo bem com você e que só eu sofreria.
- No começo eu tive medo de te ligar e disso te fazer sofrer. Depois fui eu quem comecei a sofrer por não falar o que sentia. É estranho mas foi neste tempo de distância que eu entendi você. Eu era compreensivo mas sem te compreender.
- Eu senti o mesmo. Eu comecei a fazer tudo o que você fazia, a falar de mim, a me abrir, a fazer com que o mundo fizesse parte também. Eu entendi como você se sentia pois eu senti a falta de você falar, e isso nunca faltou. Eu senti falta das suas ligações, das suas exclamações, e por isso resolvi ligar. Confesso que ainda não sei bem se evoluí tanto, mas eu preciso te dizer que medo e amor não se confundem mais, porque a saudade os colocou no mesmo plano.
- Ouvir isso me faz tão bem. Você precisou falar para me ouvir, e o meu silêncio me ensinou a te escutar.
- É isso!
- É.
(longo silêncio).
- Bom, preciso ir, daqui a pouco começa minha aula de vôlei.
- Sim, mas... nos falamos?
- Claro, nos ouvimos.