sábado, 31 de janeiro de 2015

O eixo

E houve sim uma segunda chance, e então a terceira, a quarta. Sentia-se feito tivesse atracado em braço de mar após conhecer a sua imensidão, bem longe de qualquer terra ou continente. A pele dourada pelo sol, o desejo de sombra, as nuvens brancas e o peito carregado trovejando. A sua imagem para si.

Seu céu não é feito de sonho como a paixão flamejante do prenúncio de outrora. Não é feito de rabiscos bonitos, de leituras intrigantes sobre os astros, não é feito de razão química e inclusão social. É feito de dor.

Os erros partem sempre de escolhas e as escolhas são perspectiva, nada se decide sem um afeto, sem um percurso, sem um adiante. E adiantar-se é erro já. E errou bem mais do que acertou. A cinza massa escura que sobrevoava seus dias era já a sua derrota que em meio a uma chuva intensa entenderia.

E massacrar-se podia, não devia. Dever é obrigação demais e ter de entregar o tudo pronto e bem feito era o seu malogro. Queria deitar-se na ternura e encontrava um abismo. A história da maçã fez então o sentido que nunca entendera. Fez-se compreender também as tramas que envolvem o amor. O ardor em meio à serenidade e o nada estar em mãos. A entrega é mesmo um horizonte aberto que deslancha ou se desfaz em meio a algo do qual estamos inaptos a determinar.

E se fez real, como talvez não tanto outrora, e encontrou-se a si mesmo no braço de mar. Não tinha mais a posse de nada, restou apenas o si mesmo, mas consigo pôde se deitar.