Eu me lembro de uma manhã acordando bem cedo. Havia esse sentimento de possibilidade. Sabe? Esse sentimento? E me lembro de pensar comigo mesma: "Então é assim que começa a felicidade. Aqui é o começo. E é claro, haverá sempre mais." Nunca me ocorreu que não era o começo. Já era felicidade. Era o momento. Bem ali.
Clarissa Vaugham - As horas
Há sempre uma fagulha, uma faísca, um pequeno rastro que aponta o horizonte. Mas é que a gente vê o horizonte de beirinha, na fresta, e por mais que queiramos, é impossível agarrá-lo. É fácil se esquecer que, ali da fresta, naquela pontinha que nos permite ver é que mora toda a razão. O horizonte é lindo quando o vejo, mas sempre uma promessa, e por mais que eu tente o alcançar, ele sempre vai estar colocado adiante. A vida só vem em fagulhas para nós, mas a fagulha diz de um fogo que brada, e com a faísca eu presumo e sinto a existência da chama por um instante. Por vezes nos esquecemos e pecamos por querer o todo ao invés de deliciar a ponta. É ilusão viver de flor, a vida tem muito mais de sumo, de fresta, de faísca. É dali que tudo surge e é só o que se pode ter. A todo, o horizonte sem sua origem é furor ingênuo, frívolo e vazio. Não há motivo para se engrandecer então, mas nem tampouco para se apequenar. O horizonte é a proposta de um caminho. Basta se lembrar da faísca, em meio ao frio de uma passada, que saberá do que se trata o calor.